O QUE É QUE TEM NO LEITE DO NENÉM?

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PHOTOGRAPH BY GETTY IMAGES/CAIAIMAGE

A experiência de Karine Durães com amamentação começou cedo, quando ela tinha apenas 15 anos. “Foi muito bonita”, declara como sendo o motivo de sua decisão para ser nutricionista e consultora de aleitamento materno. Ela teve uma gravidez de risco e sua filha nasceu com 36 semanas de gestação, pesando 1k e 700g, o que é sinônimo de UTI. “Eu não fui orientada de início como poderia amamentar minha filha, apesar de ter um banco de leite no hospital”, alega relembrando a dificuldade que tinha do bebê pegar no peito depois da mamadeira.

Karine ainda revela que a gravidez de adolescência é uma gravidez marginalizada, e que os médicos não falavam com ela nem davam notícias. Ela foi se inteirar do assunto através de um livro chamado “Como e por que amamentar”, escrito pelo pediatra José Martins Filho. A adolescente aprendeu que o leite materno ajudaria sua filha a ganhar peso e sair do hospital o quanto antes. E assim aconteceu, dentro de 15 dias já estava fora da UTI. “Aquilo foi muito bom para a minha autoestima, eu me sentia como parte integrante da melhora da saúde da minha filha”, conta. Karine amamentou no peito até os 2 anos e 8 meses de idade da criança.

Embora a experiência de Karine tenha sido boa, várias mulheres sofrem na amamentação. Muitas mães que tem excesso de leite ou até mesmo a falta dele, sequer sabem que o Banco de Leite pode auxiliá-las com orientações acerca do aleitamento materno. Não são poucas as que passam dificuldades e apuros por falta de conhecimento sobre o assunto. É o caso de Elisângela Souza, mãe de um casal. “Confesso que nem tinha essa informação”, declara. Na segunda gestação o leite acabou em 42 dias e o bebê recorreu a mamadeira. Ela se sentia agoniada, triste e preocupada, pois diferente do que se diz, ela dava mais o peito para estimular o leite, mas mesmo assim não produziu. A mãe acredita que o motivo do leite ter “secado” cedo foi estresse. “Então, mamães, papais e demais familiares, procurem deixar a mãe que está amamentando o mais tranquila possível, colaborem”, pede.

Além da falta de leite, outro fator que atrapalha a amamentação são as dores no seio e bico, que podem machucar e muito. Joseli Gomes é mãe de quatro: três meninas e um menino. Ela doou leite no hospital após o parto em todas as gestações, mas teve dificuldade de amamentar por ter desenvolvido rachaduras no seio. “Sofri mais amamentando do que no parto”, afirma. A manicure confessa que chorava quando sabia que os filhos iam acordar. Durante a amamentação, ela apertava a mão de Ivo, seu esposo, para descarregar a dor que sentia. Fez tudo o que mandaram fazer, mas não tinha jeito. Ainda assim, diz ter valido a pena.

“Quando eles acordavam o leite já descia, é uma ligação de Deus, você sente”, revela em tom nostálgico.

Joyce Hoiser também não teve orientação na maternidade sobre o que deveria fazer para amamentar, e sua maior dificuldade foi os seios estarem muito grandes. Ela achava que a filha estava mamando quando na verdade não conseguia se alimentar. Como resultado, Lívia saiu da maternidade com amarelão. “Sentia-me um lixo por não conseguir amamentar a minha própria filha”, alega. Joyce revela que chorava trancada no banheiro, pois sentia muita dor e culpa. “Na verdade não sei no que eu sofri mais, no parto ou na amamentação”, afirma. Depois que um pedaço do bico do peito de Joyce caiu e ela foi levada a emergência, a doutora pediu para Lívia sair do peito. Aliviada, ela admite ter só então começado a olhar para a filha com amor.

“Se depois do parto as mães tiverem ajuda dos profissionais, dificilmente terão problema”, revela a consultora internacional em aleitamento materno e coordenadora do banco de leite do Hospital de Clínicas em Curitiba, e mestre em saúde da criança, Celestina Grazziotin. Ela atenta para a falta de orientação as mulheres no pré-natal em relação a ensinar posição e pega correta por exemplo. “Tem mulheres que deixam leite secar por falta de cuidado ou ajuda… Toda mulher que engravida prepara o corpo para a amamentação”, esclarece. Segundo ela, o banco de leite ajuda em casos de doentes, prematuros, gêmeos, trigêmeos e não bebês em casa que tem mãe. O objetivo é que a mãe consiga amamentar o filho. “Toda mulher que teve bebê, se teve apoio bem adequado, consegue ter leite e amamentar. Falta apoio”, adverte. A especialista orienta que as mães que tem dificuldade devem procurar ajuda profissional. Além disso, chama atenção para unidades de saúde a oferecer apoio a essas mães.

 

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Karine também concorda que um dos fatores que mais atrapalha a amamentação é a falta de informação em como amamentar de forma confortável. Quando o bebê consegue mamar de forma correta, o ato é totalmente indolor. Além disso, é importante se atentar aos fatores hormonais como adrenalina, sustos e cansaço extremo que podem atrapalhar na saída do leite materno. A ocitocina – hormônio liberado quando se está em situação de segurança – é responsável pelo leite sair do peito. Para ajudar a desenvolver ocitocina, soluções simples como um abraço ou toque de pele a pele ajudam.

“É importante apoiar essa mulher de todas as formas possíveis”, pede a especialista.

O âmbito social também pode gerar dificuldades na amamentação, pelo preconceito com crianças maiores que ainda mamam no peito ou com o aleitamento em público. De acordo com a nutricionista, a mulher precisa acreditar na capacidade do próprio leite.

De acordo com as especialistas, o leite materno é o alimento mais completo que existe no mundo, pois ele atende todas as necessidades de nutrientes e sais minerais da criança como: ômega 3, vitamina K, água, carboidrato, gordura, todos os micro e macro nutrientes disponíveis em quantidade adequada. O leite materno também tem substâncias que ajudam a proteger e aumentar a imunidade, além de conter fatores que melhoram e regulam a flora intestinal.

Segundo a Organização Mundial da Saúde e pesquisas científicas, o leite humano preenche necessidade de crianças até seis meses de vida. Após esse período o indicado é que alimentos especiais sejam introduzidos (as famosas papinhas) o que não exclui o peito. Geralmente a criança pode mamar no peito da mãe até os dois anos de idade, diminuindo gradativamente a frequência e introduzindo mais alimentos. “É uma vacina. Se ela quiser amamentar dois anos ou mais, permitam, ela que decida”, pede Celestina.

Depois desse período o ideal é que a espécie humana não beba leite industrializado ou animal. Para a estudiosa, o dito que é necessário beber leite para ter cálcio é um mito. As frutas, verduras e legumes tem fontes de elementos essenciais para viver bem até a velhice. “Só que é difícil introduzir isso na nossa cultura”, alega, completando que isso acontece por preguiça e urgência. Celestina apela que todos se desvinculem da força de pressão da indústria para o leite artificial. Também pede para profissionais da saúde e familiares apoiarem a mãe que está amamentando, confiando na capacidade dela de amamentar, uma vez que foi capaz de gerar.

Para Karine, a sociedade ainda tem preconceitos com amamentação, inclusive o meio médico que indica o desmame a partir de 1 ano de idade ou a introdução de fórmula infantil. “Nossa licença maternidade de 4 meses é uma licença que não ajuda a mãe a amamentar exclusivamente”, reclama dizendo que isso é um pecado em relação ao aleitamento materno. O escândalo que causa uma mulher amamentar em público também é algo que precisa mudar, porque de acordo com nutricionista, só consegue amamentar quem tem exemplos sobre amamentação. “O mundo inteiro ganha com a amamentação, então todo mundo deveria de alguma maneira incentivar o aleitamento materno”, incentiva.

Seja uma doadora

Para doar o leite materno, a mãe pode ir diretamente ao banco de leite para atendimento ou agendar uma visita a domicilio. No segundo caso, o contato é feito por telefone ou pessoalmente e em seguida a mulher passa por uma avaliação ou entrevista para conferir se ela está realmente disponível para doação. O próximo passo é agendar a visita e no dia receber um técnico de saúde que leva material esterilizado para coleta e então marcar o retorno, até que ela avise não ter mais excesso de leite.

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