Atenção rapazes: chorar tá liberado

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foto de Maud Fernhout

Quando entra em contato com o mundo pela primeira vez, o recém-nascido chora. Do contrário não poderia viver se o pulmão não abrisse expulsando o líquido de dentro dele trocando por oxigênio. No primeiro minuto de vida aprendeu espontaneamente que chorar faz parte de viver. Quando ralou o joelho pela primeira vez ou quebrou um osso não conteve as lágrimas nem o grito alto para que alguém o ajudasse, ele não seria capaz de estancar a dor e o sangue sozinho. Quando se sentiu rejeitado, humilhado, quando soube daquela história, quando sentiu a sua própria história… Eles choraram também. Mesmo assim, eles continuam escutando repetidamente que “homem não chora” e que devem imediatamente “engolir o choro”.

Eu choro, tu choras, nós choramos

Fisiologicamente falando, as lágrimas são gotinhas produzidas pelas glândulas lacrimais. Elas são divididas em três categorias: as lubrificantes, que permitem os olhos não secarem e, assim, ser possível enxergar; as reflexas que aparecem quando algo cai no olho ou cebolas são cortadas; e finalmente as emocionais. Existem benefícios nelas, a saber a umidade, nutrição e limpeza dos olhos. Mas, além disso, muitas pessoas afirmam que depois de chorar se sentem melhor. A mestra em desenvolvimento humano, Luciene Bandeira*, revela porque isso acontece: “depois de chorar normalmente nossa frequência cardíaca diminui e entramos em estado mais calmo, como se aliviasse”. Mesmo assim, opiniões de pesquisas sobre o humor melhorar após o choro divergem.

O psicólogo Flávio Mesquita ressalva a importância de observar a situação do choro, se há valor objetivo que o sustente com legitimidade. “Uma expressão exacerbada de padrão de choro pode indicar uma fragilidade emocional como o estabelecimento de um quadro depressivo”, explica Mesquita. Salvo casos específicos, chorar faz parte da natureza humana e por si só não pode ser classificado como uma fraqueza. “Ao contrário”, continua Flávio, “isso pode ser até uma expressão de força”, uma vez que a pessoa consegue enfrentar ou ter uma visão clara da perspectiva do contexto expandido do qual ela está inserida. O importante mesmo, como sugerem os especialistas, é conhecer suas emoções, saber nomeá-las e controla-las, ao invés de reprimi-las.

Em terapia quando o indivíduo chora, é considerado o contato mais profundo consigo próprio. Isso acontece porque quando a pessoa entra se encontra com algum conteúdo, memória ou reminiscência que é carregada de uma carga emocional importante, ela é acompanhada da expressão do choro.  “Quando você se priva disso, você está se furtando o direito de exercer alguma coisa para qual somos programados pela natureza”, afirma Flávio. O filósofo Friedrich Nietzsche já refletia: “transforma-te no que tu és”. Para o psicólogo existe um poder enorme de emancipação, desenvolvimento e amadurecimento pessoal quando se permite entrar em contato com a sua essência, aquilo que é mais profundo.

De acordo com a terapeuta Dilene Ebinger é possível expressar emoções – sejam elas positivas ou negativas – através da fala, atitudes e também pelo choro. “Expressões que não são expressas se alojam na carne, elas se transformam em dores”, explica. Para Dilene, o choro não é sinônimo de fraqueza, mas de muita força. “Somente aquele que é centrado, que sabe o que quer é capaz de expressar suas emoções com tranquilidade e com segurança”, declara. Isso acontece porque esse indivíduo sabe que pode expressar suas emoções e continuará sendo aceita pelas pessoas ao redor.

No llores! Cry baby cry

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via Pinterest

Gustavo Santos foi ensinado desde a infância que chorar é coisa de menina, porque é demonstração de fraqueza. Quando era moleque se caísse e se machucasse, não chorava de jeito nenhum, tinha que ser forte. “Era angustiante”, lembra. Gustavo acreditou nisso por muitos anos, mas com o tempo foi criando maturidade e entendeu que não há problema nenhum em demonstrar seus sentimentos. “Faz parte da vida. Lágrima é lágrima, sentimento é sentimento”, explica ao falar que não há diferença no pranto feminino e masculino. Até para chorar de rir. Com isso, Gustavo aprendeu que tanto a alegria quanto a tristeza passam, e ambos os momentos devem ser vividos sem censura. “Desabafei aí contigo”, ri.

Chorar ou não chorar: eis a questão. A percepção do choro como algo aceitável socialmente ou não, é cultural e varia ao longo da história. Se hoje no Brasil é estranho o homem chorar enquanto a mulher tem livre acesso as lágrimas, na Grécia Antiga era o contrário. Luciene Bandeira explica que a expressão dos sentimentos antigamente era algo masculino. Já no período medieval tanto gargalhar quando chorar em público não gerava qualquer constrangimento. No começo da Época Moderna por sua vez, sobretudo no ocidente, é notório um processo civilizador de disciplinamento desses hábitos.

“Com o refinamento, o chamado pudor, os atos que eram rotineiros passaram a ser mais discretos no âmbito privado”, afirma a mestre. As lágrimas, portanto, ficaram restritas a intimidade de cada um. As famosas carpideiras da Era Vitoriana eram contratadas para chorar nos velórios porque era mal visto chorar em público em enterros, mesmo que este fosse do seu próprio filho. No século XX a situação se inverteu pela diminuição das fronteiras que separam a esfera pública e privada. Embora a cultura latina considere inconveniente, nos dias de hoje é comum em países islâmicos que homens chorem.

É na primeira infância do menino que os padrões de comportamento “macho” são disseminados. Na busca pela formação de homens emocionalmente fortes, alguns gestores perceberam que ao proibir o choro estão criando homens violentos ou extremamente tímidos, de acordo com a especialista. Meninos que podem usar livremente sua capacidade de chorar tendem a ser mais capazes de compreender e validar a dor do outro.

Mulheres choram mais?

É fato que as mulheres choram mais e de forma mais intensa do que os homens. A psicóloga clínica Brisa Nepomuceno explica que isso acontece em resposta ao hormônio prolactina que é envolvido com a amamentação, embora todas as mulheres tenham independentemente de amamentar ou não. Por outro lado, altos níveis de testosterona podem inibir as lágrimas. Estudos apontam que mulheres com mais testosterona e menos prolactina choram menos na fase adulta, enquanto até a adolescência meninos e meninas chorem na mesma proporção. Luciene comenta que isso pode ter cunho cultural.

Brisa ressalta que nas crianças, assim como nos idosos, o controle sobre as expressões e emoções é menos eficiente. “O córtex pré-frontal é hipofuncional, o que torna mais difícil segurar o choro e as emoções”, explica. Em linhas gerais o gênero feminino tende a ser mais emotivo do que o masculino, por sua vez tendendo a racionalidade. Há também forte influência do padrão cultural da sociedade em que esse homem ou essa mulher estão inseridos. “A menina é franquiado o direito do choro”, comenta Flávio Mesquita. Em suma se uma pessoa tende a ser emotiva ou não depende mais da bagagem da mesma.

“Engole esse choro ou vai apanhar”

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foto de Maud Fernhout

Robert Machado era a típica criança chorona. Por isso escutou repetidas vezes “para de chorar, homem não chora”. E ele parou. Trocou suas lágrimas por estresse, o que ele não imaginava que afetaria sua vida futura. A personalidade de Robert mudou, agora ele era uma pessoa mais fria e calculista. Sentia fortes dores de cabeça quando queria chorar, e o oftalmologista disse que seus olhos estavam muito secos. A personalidade dele que estava bloqueada pelas lágrimas trancadas, foi libertada quando, de novo, deixou as lágrimas livres. “Isso não é uma coisa feminina, é uma coisa humana”, relata.

A psicóloga adverte que segurar as lágrimas frequentemente desenvolve um certo grau de instabilidade psicológica. Guardar sentimentos negativos e ignorar emoções pode dar início a um quadro depressivo. “Segurar o choro traz desconforto físico e emocional”, afirma. Quando a pessoa segura o choro, Brisa observa que ela contraí os músculos do peito, ombros e garganta, impedindo soluços. Os lábios enrijecem e até mesmo as sobrancelhas são posicionadas de forma a evitar que as lágrimas surjam. As contrações também acontecem nos vasos sanguíneos, estômago e intestinos. “Alguns indivíduos relatam que após segurarem o choro tiveram crises de enxaqueca, vômitos e dores estomacais”, declara a psicóloga.

Tirar a oportunidade de choro contribui negativamente para a cristalização de emoções que ficam reprimidas na psique e podem pedir contas ao longo da existência. Flávio explica que “engolir” o choro em uma situação de luto, por exemplo, pode protelar o mesmo. Não somente isso, mas da perspectiva psicossomática a repressão de emoção pode ter repercussão fisiológicas como câncer, doenças autoimunes, asma…

Para o psicólogo, a frase “homem não chora” tem uma conotação de desejo ou pressão ideológica contaminada por uma cultura que tende a ser machista. Ela aponta para o masculino falando o que ele não deve fazer mais do que uma constatação do que ele não faz. Flávio explica que isso acarreta em um potencial danoso muito maior, pois pode gerar sentimento de inadequação no homem que percebe a capacidade de chorar. “Como que eu choro? Então não sou homem? Sim, o homem chora”, declara.

“Não chorar nunca vai exigir um elevado controle do comportamento e isso é desgastante”, afirma Luciene. Esse desgaste pode ser comparado a um estresse agudo. Pode não parecer muita coisa no mundo estressante atual, mas a exposição a altos níveis de estresse por tempo prolongado causa mudanças a longo prazo nos níveis de cortisol – hormônio regulador do estresse. Se ainda não ficou claro: isso pode causar alergias, doenças autoimunes, entre outros. Parece assustador? Luciene alerta que reprimir sentimentos pode desencadear doenças psicossomáticas, a exemplo de depressão.

Se por um lado segurar o choro pode causar problemas, o choro exacerbado também é sinal de alerta. Se o comportamento que o individuo expressa diante de situações problemáticas se resume a chorar, isso é uma demonstração de limitação no repertório comportamental da mesma. Ou seja, dificuldade para superar as adversidades. “Depois do choro é importante que venha ação, reflexão, pedido de ajuda ou auxilio, porque aí ele se torna parte de uma expressão comportamental mais elaborada”, esclarece Luciene.

Brisa compara o imperativo “engole esse choro” ou o dito popular de que “homem não chora” com alguém que está com muita sede e lhe é negado um copo de água. Ela afirma que quando a pessoa suporta suas dores sozinha ela adoece com mais frequência e de maneira mais grave do que aquelas que expressam suas emoções e dores através das lágrimas.

O dito popular de que “homem não chora” é, para a terapeuta Dilene, uma infelicidade. Ela acredita essa frase é uma repressão machista de uma sociedade da qual o homem deve ser muito forte e duro, impedido de demonstrar emoções. Esse pensamento pode enrijecer, insensibilizar e trazer problemas para uma vida toda. Quando se chora, uma emoção está sendo transmitida. “Sua emoção é importante pra mim, tem significado e eu aceito e recebo”, fala Ebinger sobre a educação emocional ao lidar com o choro infantil. Dessa forma, o sujeito se sente aceito, amado e importante.

O choro delEs

Manoel Vicente já segurou o choro para não demonstrar fraqueza. Se considera emotivo, especialmente com suas experiências do passado. “Nós homens temos muita responsabilidade pra sociedade. O ato de chorar também é um pedido de socorro a quem confiamos”, declara.

Thiago Mota aprendeu em casa que homem engole o choro e vai resolver o problema. As pessoas do seu convívio acham que ele é uma pessoa fria, mas ele admite deixar rolar aquele suor dos olhos com histórias de superação.

Jefferson Braun chorou quando a namorada disse que o amava. Ah, em filmes também. O jornalista crê que acima de qualquer estereotipo, todos são seres humanos. “Se o homem chora ou não isso não vai fazer a virilidade dele ficar em cheque”, afirma. Ele cita a especialista em desenvolvimento humano Heloisa Capelas ao declarar que o machismo e o patriarcado afetam os homens pelos paradigmas e estereótipos impostos pela sociedade, o que acaba dificultando lidar com as próprias fraquezas.

André Apolinário geralmente chora de estresse. Estresse causado justamente por guardar muito seus sentimentos. Inclusive quando a entrevista foi feita, fazia dois dias que ele tinha chorado pela ultima vez. “Só chorar não resolve o problema, tem que decidir se levantar e tocar a vida”, declara. André pede para que os meninos chorem. Para ele, chorar não é fraqueza, mas sim força pela demonstração de humanidade.

Victor Rocha de pronto disse: “eu choro pra caralho”. O triatleta discorda que lágrima tenha algo a ver com fraqueza. Atualmente está fazendo intercâmbio e não esconde ter chorado muito quando foi morar sozinho. “Mas hoje estou bem”, conta. Para ele, homem pode chorar, e ainda aconselha: se possível abraçado com alguém que você ame.

“Homem deve chorar, embora eu já não lembre o que seja isto!”, alega o fotógrafo Adeilson Santos. Ele foi criado em uma família clássica nordestina do “se chorar apanha”. Quando seu primeiro filho nasceu, ele tinha se preparado para abrir o berreiro, no entanto relata que na hora conteve inconscientemente a emoção. Adeilson afirma que a dor no peito dói muito além de uma lágrima que escorre no rosto, e nem sempre o choro é sua forma de expressão. O não chorar não faz dele mais homem e nem menos sensível.

William Bontorin acredita que homem evita chorar por causa da imagem. “Só que eu já saí dessa vida, choro mesmo”, brinca.

Daniel Perla tem uma senhora barba de impor respeito quando se vê. Era censurado para não chorar caso sentisse dor ou medo. Com a sua própria experiência aprendeu que prender o choro pode ser prejudicial, por isso diz: “chorem quando der vontade. É uma forma natural de expressão”.

Quando era “pirralhão”, Keny Ebinger (sim, filho de Dilene) sempre escutava dos colegas da escola que homem não hora. No entanto quando chegava em casa e conversava com sua mãe ela lhe chamava a atenção para o perigo dessa frase. “Os homens também têm glândulas lacrimais, então tem que chorar mesmo”, ri Ebinger, que admite gostar muito de chorar por alegria.

 

 

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