Pai também pode (e deve) ser pai

Phillipe faz cabelo e unhas, Lizandro foi em workshop de tricô e Aggeo se aprofunda cada vez mais no universo feminino. Esses três homens são heteros, e podem não parecer convencionais, mas eles são apenas pais. Pais presentes. E solteiros.

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Foto via

Lizandro Crus, carioca, estava em uma mistura de exuberante felicidade e pavor. Sempre quis ser pai, mas agora que o sonho estava a se concretizar pensava nos obstáculos existentes mesmo antes da criança nascer. Quando um dos seus amigos viu a preocupação dele o chamou para “encher a cara” e lhe dar uns “tapas”.

“Deixa de ser babaca, só por você estar preocupado assim já é melhor que muitos pais!”, disse o amigo.

E depois dessa conversa ele encheu o pulmão decidido a contornar as dificuldades.

O papai de primeira viagem não tinha plano de saúde, e como professor de geografia queria arranjar uma escola melhor para trabalhar, dessa forma seu filho poderia estudar lá gratuitamente. Até para arrumar o enxoval estava apertado. Para agregar, nessa época Lizandro e a esposa estavam se distanciando, mal tinham certeza se continuariam casados. Essa era uma de suas maiores preocupações, pois ele é órfão de mãe desde os 9 anos de idade e foi criado pelo pai, nordestino clássico do “se vira sozinho”. Ele sabe que a carência paterna ou materna não é agradável, por isso hoje tem a guarda do pequeno Thomaz compartilhada.

A história de Lizandro é muito parecida com a de outros pais solteiros e solos (estes têm os cuidados da criança full time). O sonho se realizando na barrigona na mulher, o assombro de olhar para algo tão frágil e saber que a responsabilidade é toda sua, a dor da separação e as dificuldades que todos – quer seja homem ou mulher, na maternidade e na paternidade – têm.

A história se repetia na família da pequena Emma de um ano quando seus pais se separaram. Eles não eram mais amigos e a casa deixou de ser lar. Depois de conversarem decidiram que seria melhor que ela ficasse com o pai. Ainda que tenha sido um consenso, Phillipe Morgese estava com medo. “Eu não me considerava pronto para ser pai”, conta. Ele passou meses lendo sobre o assunto e conversando com amigos. Afinal, ele sabia que ela merecia o melhor dele.

Phillipe aprendeu a fazer penteados nos longos cabelos de Emma. Assim surgiu a ideia de unir o útil ao agradável: Morgese deu início a Daddy Daughter Hair Factory (Fábrica de cabelo da filha do papai, em tradução livre). Da mesma forma que essas informações o ajudaram, ele ajudaria outros pais a tornar o obstáculo em oportunidade de se aproximar das filhas. Primeiramente ele tinha em mente compartilhar a experiência com os amigos que eram pais, mas logo viu a importância do projeto e espalhou para quem quisesse saber.

A iniciativa veio da vontade de que a visão da sociedade sobre a figura paterna pudesse mudar. Pais também são amorosos, envolvidos e entendem o quão importante sua posição é na família. “Nós vamos encorajar uns aos outros e inspirar a próxima geração de pais a serem mais envolvidos. As crianças precisam de nós”, explica. Quando Emma escuta a palavra “pai”, ela interpreta como alguém que mostra o caminho, se preocupa com ela e sempre está disposto a ajudar. “Pais precisam ser fortes e ter dinheiro para sorvete também”, completa.

A relação dos dois é bastante sólida. Eles conversam sobre tudo, até mesmo namorados e menstruação, e Emma não vivenciou nenhum dos dois ainda. Morgese acredita que o amadurecimento dela como mulher vai ser desafiador para ele, uma vez que ele não vai entender tudo o que ela passa.

“Mas eu vou estar lá para confortar e escutar ela, então eu acho que tudo vai ficar bem”, declara.

Phillip conta que o mais gostoso da paternidade é ajudar Emma a criar confiança. “Eu amo ver a animação dela quando ela percebe que tudo é possível”, diz orgulhoso.

Assim como Lizandro e Phillip, Aggeo Simões teve medo. Sua filha Ava tinha um ano e meio quando ele se divorciou da esposa. Optaram pela guarda compartilhada. Sempre quisera ter a experiência de ser pai desde os 15 anos, embora admita que isso não é comum no meio masculino. “Tive pesadelos horrorosos. Acho que meu inconsciente simulou situações que, quando acordado, me fizeram ficar alerta”, declara.

Aggeo passou por fases turbulentas e decidiu compartilhar sua vivência com outros. Assim criou o Manual do Pai Solteiro, primeiramente um blog que agora tem a versão física em livro. Ele conta que já sentiu preconceito das pessoas em relação a sua identificação como “pai solteiro”. Alguns amigos diziam que isso era tática de conquistar mulheres entre outras “besteiras”. Embora Simões siga o exemplo atencioso e amoroso do seu pai, admite que na geração dele o homem não costumava tomar conta de criança. “Era tido como coisa de mulher”, revela.

Diferentemente, o processo da guarda para Lizandro foi uma loucura. Ele não aceitava ver o filho apenas de 15 em 15 dias. “Entrei em paranoia”, relembra. Pela justiça, o dito popular é que a guarda sempre fica com a mãe. “A defensoria se recusava a pegar meu caso, eles diziam que era caso perdido”, conta. Sem apoio jurídico resolveu estudar a legislação. Descobriu que a história da guarda automática para a mãe não era lei. Ele não suportava a dor de ficar longe de alguém que era parte de si e foi lutar no Tribunal.

Não saía da cama, sequer queria tomar banho e mal tinha forças para trabalhar. Só se sentia humano novamente quando o filho estava com ele, era pura cor e energia. Assim que a porta fechava e ele ficava sozinho de novo, o sorriso já era. A casa virava de cabeça para baixo e a cama o convidava a ficar lá mais da metade do dia. Procurou ajuda, estava com depressão. A psicóloga pediu que ele escrevesse o que estava sentindo, a fim de desabafar. Detalhe: ele deveria jogar fora depois. Como professor, pensava que era tamanho absurdo rasgar uma produção cultural e decidiu registrar tudo.

Um amigo o incentivou a publicar em formato de blog a fim de ser orientação para outras pessoas. No dia 24 de janeiro de 2013 nasceu o blog “Sou Pai Solteiro”. Lizandro nunca tinha nem lido algum blog antes. Não tem ânsia pela fama, mas se isso ajudar a divulgar a causa, “vamos lá”, diz. Tem canal no YouTube também, desde 2015, e até agora tem 5 dólares para receber. Hoje ele é porta-voz paterno, causando reflexão nas famílias sobre o papel do pai.

O carioca acredita que a sociedade não prepara os homens para serem pais da mesma forma que estimulam as mulheres para a maternidade. Parece duvidoso e estranho que um homem tenha capacidade para tal. “Mulher não nasce sabendo, comigo foi a mesma coisa”, fala. As frases mais escutadas eram: você faz tudo mesmo? Mas você lava roupa? Você cuida dele? Ao que ele responderia ironicamente: eu compro ração, coloco leite e dou pra ele. Jogo roupa fora e compro novas. “Eu acordo 5h40 da manhã, não acreditam. São coisas que mãe tem que fazer, e eu como pai faço também”, conta.

Tudo que as mães contam passar, eles passaram. Ao falar do seu papel como pai, Lizandro brinca que não dá de mamar e não pariu por motivos óbvios, mas declara ter descoberto um amor incondicional nunca sentido antes.

“Já enchi a cara de desilusões amorosas, mas nada é comparado aquela mãozinha tocando na tua cara, a respiração dele deitado no seu peito”, diz.

As coisas chatas como dar banho e limpar fraldas, o papai revela ter feito reclamando, mas feliz.  Ele lembra de já ter trocado a fralda de Thomaz em público, porque no banheiro masculino não tinha fraldário. A rotina toda muda e cansa, mas existe disposição para no dia seguinte repetir tudo, pois a experiência de paternidade mata mais de amores do que de cansaço.

Já para Aggeo, as maiores dificuldades como pai solteiro eram de levar a filha ao banheiro feminino, apresentar a nova namorada e coisas cotidianas como fazer comidas saudáveis que ela gostasse. Embora Ava tenha atualmente 13 anos, as preocupações continuam com relação a integridade, segurança, saúde física e mental bem como educação.  Por isso o diálogo é tão importante. “Quando eu sinto que ela está precisando desabafar, a gente senta, conversa e flui”, conta. Mesmo que não esteja totalmente inserido no universo feminino, Aggeo fala sobre tudo, respeitando quando ela fica tímida com certos assuntos.

Ele afirma que ver um ser humano crescer é lindo. “Ainda mais quando é sua filha”, acrescenta. Simões fica orgulhoso de acompanhar o crescimento de Ava e vê-la se tornar uma adulta aos poucos. Isso não tira as boas lembranças da infância como o dia em que ficaram colocando nomes nas estrelas, juntos.

“É a minha história misturada à dela”, fala.

Aggeo aconselha que os pais separados devem tentar ao máximo manter em ambos os lares a mesma rotina, dieta e hábitos de lazer para a criança sem haver competição, pois ainda são uma família. “A gente tem que engolir sapos e segurar a onda dos barracos em prol da criança. Vale a pena. Tolerância mil é o lema”, aconselha.

Para o norte-americano crianças são investimento que custa tempo e dinheiro. Parece muito sacrifício, mas Phillipe fala sem hesitar que é o melhor investimento de todos. “Coloque as crianças no primeiro lugar e você vai descobrir uma felicidade que é impossível de explicar”, afirma. Segundo Morgese, a paternidade é um presente de Deus. Ele se sente abençoado de ser professor, guarda-costas, enfermeiro, cozinheiro e treinador da vida.

“Paternidade é maravilhoso se você for homem pra encarar isso”, afirma Lizandro. Para ele, o provedor que pega para passear não é pai, senão dono de cachorro. “Isso qualquer retardado pode fazer, pai tem que botar a cara a tapa”, enfatiza.  Um dia o sobrenome “Solteiro” no blog pode mudar, pois o carioca ainda quer viver um grande amor. No entanto, ele sabe que nada vai substituir o amor que Thomaz tem por ele.

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Aggeo e Ava


How to make a Basic Rope Braid | Dad Hair School | Babble

Phillip e Emma


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Lizandro e Thomaz

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Um comentário sobre “Pai também pode (e deve) ser pai

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