Puerpério: o segundo parto

 

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Foto via saltoaltoemamadeiras.com.br

Lia Costa e Emanuely Miranda

Mariana Brito, estudante, descansa em sua cama. Os olhos pesados repousam sobre o berço logo à frente e se desviam do foco apenas para dar uma ou outra espiada na televisão. Mesmo em seu breve momento de lazer, a mãe direciona atenção para a bebê recém-nascida. Clarice dorme serenamente envolta por lençóis rosas, mas nem tudo na rotina de sua família segue no compasso tranquilo de seus sonhos.

A gravidez de Mariana chegou de surpresa, e todos tiveram que se adaptar à nova realidade. Felizmente, ela recebeu apoio dos parentes e amigos. Entretanto, nem toda ajuda recebida foi capaz de amenizar alguns percalços que chegam junto com a maternidade. Fala-se muito sobre as complexidades e cuidados necessários durante os nove meses de gestação. Pouco se sabe que, após as dores do parto e o primeiro choro do bebê, surgem outras adversidades. A gravidez sai de cena e cede palco para o puerpério.

Trata-se do período que decorre desde o parto até o momento em que o corpo da mulher retornará ao estado anterior. “Nessa fase, o organismo materno experimenta modificações fisiológicas e psicológicas expressivas”, declara o ginecologista Rodrigo Zaiden. Claramente os hormônios da mulher não são os mesmos depois de ter gerado uma vida dentro de si. Os 40 dias pós-parto são a fase mais sensível para intensificar manifestações que vão do baby blues (melancolia da maternidade) até a depressão pós-parto. Esses sintomas podem durar dias e ser atribuídos ao stress de quando “a ficha cai”.

De acordo com a psicóloga Maria Coutinho, essa síndrome atinge metade das novas mães, que lá pelo terceiro e quinto dia geralmente têm remissão espontânea. Cuidado com o puerpério nunca é demais, pois é uma etapa de profundas alterações sociais, psicológicas e físicas. Mais instável que TPM. “Demanda a necessidade de um profundo conhecimento desta etapa na vida feminina, um fator essencial na determinação do limiar entre a saúde e a doença”, alerta a doutora.

Para a doula Adelia Segal, o nascimento dos filhos é apenas o começo de uma vida da qual a mulher não terá mais o controle que outrora tinha. O horário de dormir muda (algumas vezes nem acontece) e ir ao banheiro quando sente vontade é um luxo antigo, bem como lavar os cabelos. A receita de um litro de água por dia triplica. Alimentação saudável não é mais uma escolha e assume o caráter de dever. “A privação do sono eu diria que é a questão mais difícil, pois ela agrava todas as outras situações”, opina Adelia em uma espécie de desabafo na posição de quem já passou por isso.

Mariana, mamãe de primeira viagem, comenta sobre outro sofrimento característico do puerpério. Ela sentiu as dores oriundas do aleitamento. “Clarice arrancou um pedaço do meu peito”, revela em tom de espanto. O ginecologista explica que isso ocorre pois as mamas ficam túrgidas e sensíveis. Para evitar as dores sentidas por Mariana e tantas outras mães, ele recomenda uma boa pega. “Assim reduzimos as dores que ocorrem no ato de amamentar e também fomentamos uma produção de leite”, afirma. A mãe precisa observar como seu filho suga para então orquestrá-lo.

Outro fenômeno desconfortável percebido por Mariana foi o fluxo de sangue vaginal. Rodrigo revela a origem desse sangramento. “Uma ferida se forma na região logo que a placenta se separa do útero. A cicatrização ocorre lentamente e por isso observamos a saída de sangue”, esclarece. O médico ainda acrescenta que essa secreção muda com o passar dos dias e adquire aspecto amarelado. Diante das variações físicas que acometem a mulher, seu estado psicológico se abala. O humor de Mariana despencou. “Eu me senti sozinha e minha autoestima ficava lá embaixo. Além disso, pensava em muitas coisas que me deixavam triste”, confessa. Mesmo após dois meses desde que sua filha nasceu, ela ainda não se considera plenamente recuperada. Para ela, o puerpério continua.

Com o objetivo de minorar as dificuldades enfrentadas por Mariana, a doula recomenda um plano pós-parto para determinar quem estará ao lado da mãe. “Essas pessoas devem estar dispostas a ajudar e não julgar. Acolher as decisões e não determinar o que a mulher deve ou não fazer”, realça. Uma mãe bem orientada e acolhida tem grandes chances de ter um puerpério mais suave. A doula, mãe de dois, acredita piamente que rede de apoio é a palavra-chave. Essa rede não é composta apenas por parentes e amigos que auxiliam nas tarefas diária. É preciso estar cercada por profissionais de confiança.

A doula faz uma observação importante: as mulheres acham que elas devem sentir amor incondicional pelo bebê logo nos primeiros dias. Surpresa! Isso nem sempre acontece e foi assim com ela mesma. Para não virar paranoia é bom saber que isso é normal. Adelia gostaria que todas as mulheres soubessem que não precisam dar conta de tudo. “Elas precisam de colo para poder dar colo. Para que elas cuidem dos filhos delas, precisam que alguém cuide delas e as acolha”, diz. Afinal, só podemos dar aquilo que temos.

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