As drogas que inventamos para nós mesmos

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Ilustração via Vila Mulher

De alguma forma, somos o que comemos. Se alguém escolher comer uma laranja, vai ingerir vitamina C, por exemplo. E se escolher comer chocolate, outros nutrientes estarão presentes e ausentes. O que alguém come forma quem ele ou ela vai ser e é. A comida mostra gostos, peculiaridades e vícios. Este último aspecto, o vício, é onde o prazer de comer não tem um fim tão gostoso.

A mãe de Ana Vieira é doceira, mas não é tão chegada em doces como ela, que se considera uma formiguinha. “Minha casa tem cheiro de açúcar”, conta a estudante de tradutor e intérprete. Ana já tentou parar de comer doce, mas sem sucesso.  Para evitar o açúcar, ela come mel todos os dias. A ideia de temperança vem de princípios de saúde, pois ela sente que quando come menos doce tende a ficar mais disposta. Uma vez, Ana tentou cortar o açúcar por conta própria e não passou bem, porque o corpo estava acostumado a receber a dose diária. Na segunda vez não aguentou as crises de ansiedade e voltou a comer doces de forma moderada. “Estou comendo no mínimo seis frutas por dia, então o açúcar em si não faz falta. E aí o chocolate nessa guerra contra o açúcar é o vilão”, revela. Ana não é a única nesta situação.

Como o corpo se vicia? A nutricionista Michelle Fernandes explica que a dependência de alguma substância acontece quando existe um ato submisso repetitivo. Por exemplo, se toda vez que alguém está com dor de cabeça ou irritação buscar certo tipo de alimento, quando essa busca não acontecer, o corpo produz uma dor de cabeça ou uma irritação para que a substância seja ingerida. Parece desesperador, mas existe uma solução. Quem sempre busca café quando está estressado, deve buscar uma maçã ou beber água nessa situação até o corpo entender essa mensagem. No caso de Ana, o açúcar fazia parte da rotina, e a quebra repentina causa abstinência.

Um dos alimentos cujas pessoas se viciam com facilidade é o chocolate. Ele está em todos os tipos de doces, e até mesmo em alguns salgados como cachorro quente. Chocolate é companhia de momentos bons e ruins. Mas por que ele é tão agradável ao corpo? A nutricionista Rita Cherutti conta que o chocolate eleva a serotonina, que é a endorfina do prazer instantâneo. “As mulheres tem muito mais alterações hormonais do que os homens, então a baixa endorfina as faz procurarem fontes com mais serotonina”, continua. Outras fontes dessa endorfina, segundo a doutora, são as carnes. O cachorro quente com chocolate começa a fazer mais sentido.

Rita revela que isso acontece porque os receptores do açúcar, por exemplo, são os mesmos receptores de algumas drogas. O incentivo que alguém dá ao corpo de comer açúcar com frequência cria um ciclo de restrição, privação e o desejo de comer mais. Ou seja, “dá alivio de comer aquela substância, depois a famosa bad e a vontade de comer mais”, explica.

Para não errar a regra é clara e simples: ponderação, temperança. “Não tenhas por perto se tu sabes que não podes te controlar”, aconselha Cherutti. A doutora ainda ressalta um assunto importante: muitas vezes as pessoas procuram certos tratamentos pautados em corpo alheio. Ela afirma que todos podem querer ser melhores, mas realçando o que tem de melhor e não o que o outro tem de melhor. Cada corpo é diferente e deve ser respeitado na sua singularidade. “Desta forma o tratamento vai ser mais efetivo e tu vais conseguir atingir melhor seus objetivos”, conclui.

Para o psicólogo Bruno Pereira, o vício é como uma defesa contra algo mal resolvido no psiquismo. “Quando não existe autoconhecimento, nossa vida é influenciada pelo inconsciente”.  Os vícios não são em si o problema do indivíduo, mas o sintoma de algum conflito psíquico. Muitas pessoas se refugiam nos vícios alimentares por eles serem mais aceitos socialmente do que drogas ilícitas e não tem consciência dessa compulsão. Bruno afirma que “é importante enxergar além do sintoma e ver a causa”. Para conter os vícios a palavra-chave é autocontrole, que é adquirido pelo autoconhecimento.

Segundo a psicóloga Dulce Almeida, a pessoa está na verdade substituindo a dor pelo prazer, e o problema maior é que o ciclo vicioso tende a ficar mais forte, pois esse hábito aprendido é seguido por uma gratificação emocional, como alívio de ansiedade. Ela conta que “esses comportamentos compulsivos proporcionam algum alívio das tensões emocionais, mas não se adaptam ao bem estar mental pleno”. Dulce afirma que é fundamental querer largar o vício e procurar ajuda profissional para tratar de uma possível depressão ou ansiedade mascarada.

É um ditado popular que tudo que é demais faz mal. Além da pessoa ter a possibilidade de estar escondendo um sofrimento atrás de uma montanha de comida (ou até mesmo a falta dela), a má alimentação causa muitos danos para a saúde a exemplo de hipertensão e diabetes. “Devorar um bolo, um pote de sorvete ou uma lata de leite condensado inicialmente traz prazer, mas depois vem uma sensação de impotência perante a vida”, continua Dulce. Segundo a doutora, isso aumenta o sentimento de fracasso diante de situações infortunas.

Dulce afirma que não existe um motivo exato para comportamentos compulsivos. Eles podem acontecer por insegurança, questões individuais do passado e até mesmo razões biológicas como o funcionamento orgânico. Além de má alimentação, as pessoas tendem a exagerar em bebidas alcoólicas, drogas, escapismo social, consumismo e inclusive fazer exercício físico demais entre outros excessos.

Os cuidados são a mudança de estilo de vida, reeducação alimentar e em alguns casos medicamento – com prescrição médica. O mais aconselhável pelos médicos é a atividade física, pois libera endorfina que dá a sensação de prazer podendo substituir a serotonina.

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