Cabelo Negro: Estética da Resistência

Duas amigas minhas de infância me convidaram para ir ver um projeto que elas participaram junto com outros alunos do Colégio Estadual Papa João Paulo I. Achei o projeto muito interessante e não podia deixar de compartilhar. Com a ajuda do fotografo Braulio Delai, os professores Nilo Pereira e Silvia Lemes pegaram alguns alunos que “desfilavam pela escola mostrando sua resistência” e seu cabelo afro. Em um estúdio improvisado na escola, os alunos se divertiram libertando seus cachos os revirando de um lado para o outro. Mas os vários flashs não pararam ali e na sexta-feira (29/11/2014), estive no Centro de Artes Guido Viário, Curitiba, para ver a exposição fotográfica intitulada “Cabelo negro: Estética da Resistência”.

Quem tem cabelos ao menos enrolados sabe bem que esse título se encaixa perfeitamente aos fios resistentes. Resistentes inclusive a cremes de pentear ou coisa assim. Mas voltando ao que interessa, o evento todo foi para homenagear a consciência negra e a abertura foi emocionante. Silvia, professora de artes, entrou no palco com um espelho. Mexeu os cabelos crespos de um lado ao outro e sentou-se no meio do palco, onde começou a contar de forma dramática a história do livro “Os cabelos de Lelê”. Enquanto ela lia o conto, as pessoas ao redor se identificavam com a personagem e muitos ficaram emocionados. Depois de terminar a história, Silvia disse palavras que ficaram gravadas e arrancaram lágrimas: “Vocês sabem o que é viver 20 anos querendo ser uma criança branca de cabelo liso e somente aos 30 aceitar a si mesma como é?”.

Neste momento rebobinei meus anos até um dia do qual lavei meus cabelos e com eles ainda molhados sentei no lado de fora de casa. O sol era forte e eu penteava os fios enrolados incansavelmente, esperando que eles ficassem lisos. Ao meu redor haviam cabelos enrolados, pichainhos, crespos… Todos lindos, únicos e originais. Todas livres, leves e soltas. Mas o leque de emoções estava apenas começando. Foi feita a leitura do texto “Magia Negra” de Sérgio Vaz e uma prosa em canção de Chico César, em “Respeitem meus cabelos, brancos”. E pra quem já estava arrepiado até dado momento ficou embasbacado com o grupo Tamborerê.

A música com instrumentos negros foi sentida dentro de cada coração, literalmente. Os batuques fortes e toda a apresentação visual encheram os presentes que desfrutavam de arte, literatura, cultura e música pura brasileira e afrodescendente. Toda a programação foi maravilhosa. Me fez pensar novamente no fato de que os negros eram pra ser um dos senão os mais ricos do mundo, não fosse a escravidão e exploração. Afinal, eles são os mais fortes e mais resistentes de fato. A África, por exemplo, é cheia de minérios e ouro mas ao invés de desfrutarem disso os africanos são escravizados por isso. A culpa é dos brancos? Não. Ao menos não compete a nós discutir sobre culpa de tanta escravidão e discriminação atual.

Entretanto o nosso dever como humanidade é ter consciência humana de amor e de respeito. Respeito para com a cor, a cultura. O que realmente importa é a cor de dentro. Respeitar diferenças, respeita a história de cada pessoa, seja ela quem for. Respeito para com os cabelos.

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