Entre o prazer e a nutrição

A barriga ronca. O que a gente faz? Come. A gente vai comemorar aniversário, come. A gente vai sair com os amigos, come. Reencontrar a família toda no fim do ano, come pra valer. A gente vai chamar o crush pra sair… Come mais um pouquinho. E se tudo der errado, tem as amigas pra ajudar a acabar com o pote de sorvete. A gente come mais ainda, oras bolas! Já se diz por aí que tudo acaba em pizza. Come de feliz, de triste, de raiva, de tédio (sempre), de ansiedade. Chomp, chomp!

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“eu amo comida mais do que eu amo pessoas”

Comer vai além do ditado de que “saco vazio não para em pé”. Quando se come, não se pensa somente em nutrição. Aliás, muitas vezes nem se pensa em nutrição, mas no bel prazer de mastigas e engolir. Hmmmmmm! A comida pode deixar de ser a amiga de todas as horas e se tornar uma grande vilã se for endeusada ou vista como inimiga da boa aparência. Sumir com um hambúrguer entre os dentes tão rápido que mal se lembra do gosto, evitar festinhas de aniversário ou deixar de ir com a galera do trabalho na lanchonete da esquina pra fugir das comidinhas pode ser sintomas de transtorno alimentar. Com tantas manias diferentes de cada um, como saber?

A nutricionista clínica comportamental, Fernanda Timerman, explica que apresentar sofrimento físico, emocional ou social em relação à maneira como come e na sua relação com o corpo; falar muito sobre dieta e sempre tentar algo novo, restringir cada vez mais a alimentação ou apresentar descontrole e se isolar por qualquer problema relacionado ao temor de não ter o que comer são alguns dos sintomas do desenvolvimento de alguma doença relacionada à má alimentação.  Antes de se servir é importante orar considerar qual é o motivo pelo qual se está comendo. A psicóloga Fabiola Luciano ergue a pergunta: que fome eu quero alimentar com essa refeição? “Muitas vezes é uma fome emocional que não é suprida por nada que a gente coma”, revela, se referindo aos excessos e restrições extremas. Há vários casos em que o transtorno alimentar tem que ver com algum transtorno psíquico como ansiedade e depressão.

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Giphy.com

Atualmente se vive em uma geração que busca comer bem, e de acordo com Fernanda essa procura pode levar ao desenvolvimento de algum transtorno. Inclusive existe nome e sobrenome para a demanda absoluta de comer alimentos “corretos”: ortorexia nervosa. É uma síndrome que pode causar danos sociais, emocionais e clínicos. Ela ainda declara que o equilíbrio na alimentação é o ato de conseguir identificar suas necessidades fisiológicas – a fome do estômago – e reagir mais a ela do que a fome emocional; sempre seguindo a regrinha básica de preferir alimentos orgânicos, integrais e ter flexibilidade de comer “besteiras” em eventos sociais esporadicamente.

Foi só depois de experienciar a obesidade, a tão sonhada magreza e um distúrbio alimentar que Erika Elenbaas entendeu que tem muita história para ser contada sobre a forma como lidamos com a comida e com nós mesmos.  Hoje ela é desenvolvedora do blog Brigadeiro de Alface, que começou como um desabafo de sua experiência pessoal e atualmente ajuda pessoas a encontrarem equilíbrio na corda bamba entre nutrição e prazer provenientes do alimento.

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O equilíbrio está em algo óbvio: comer bem. Comer bem, por sua vez, é poder comer com moderação e controle. “Um controle natural, e não restritivo ou autopunitivo”, explica Fabiola. Devido a cultura fitness corrente nos últimos tempos, a busca por dietas tem tido repercussões não tão saudáveis. De acordo com a psicóloga, as dietas mais restritivas podem potencializar a compulsão alimentar. “O que acontece é que as pessoas vêm distorcendo o conceito de saúde”, admite. Saúde não quer dizer ter um corpo perfeito. Aliás, perfeição é algo utópico. Fabiola conta que muitos pacientes que estão acima do peso têm mais saúde do que aqueles que o índice de Massa Corpórea (IMC) é considerado ideal.

Foi assim com Erika. Tudo começou quando ela foi para Holanda em 2010 e deu início a uma dieta prescrita por uma nutricionista famosa de lá. A dieta pedia que ela ingerisse no máximo 1.200 calorias por dia. No entanto essa não era uma tarefa fácil de cumprir, por isso quando deslizava em um chocolate aproveitava para chutar o balde naquele dia e comer tudo que desejasse. No dia seguinte, dieta de novo. Começava um ciclo de comer pouco, muito, pouco… Isso aconteceu até se tornar frequente. “Eu me sentia péssima depois disso, extremamente culpada, envergonhada e solitária por não dividir essa dor com ninguém porque eu não tinha coragem”, desabafa.

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A psicóloga Fabiola revela que para manter o equilíbrio nessa questão, é essencial não perder de vista o referencial de si mesmo. “É um exercício diário e naturalmente difícil, porque como seres sociais temos necessidade de aprovação social”, afirma. A especialista acredita que o ideal seja se perguntar até onde essa aprovação é válida para que a pessoa não viva só para os outros. “Quando a gente faz isso, perde de vista quem a gente é, a nossa identidade e se torna só um modelinho que quer se encaixar em algum lugar e isso passa a não fazer sentido”, declara. Para perceber se alguém está indo longe demais, Fabiola conta que é preciso analisar o comportamento e o discurso da pessoa com relação a si mesma e a comida.

A fim de compensar as calorias escapulidas, Erika passava horas na academia para manter o peso, começando um novo ciclo: dieta. Compulsão. Queimar compulsão. De novo. Com a ajuda do esposo procurou ajuda e começou seu tratamento em um centro especializado em distúrbios alimentares lá na Holanda. Ela foi diagnosticada com bulimia, por acontecer compulsão mais de duas vezes por semana seguidas de um tipo de compensação. “Eu achava que bulimia era só pessoas que vomitavam e não é só isso, mas qualquer tipo de coisa que você usa como forma de compensar os excessos da compulsão alimentar, seja exercícios ou algum medicamento”, compartilha. Foram seis meses de tratamento, dos quais ela aprendeu que comer de forma considerada não saudável faz parte e, acredite, é saudável.

“Equilíbrio é viver bem com o alimento” – ELENBAAS, Erika

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Acalento em acalanto

Isadora Canto nasceu debaixo dos braços do Cristo carioca, mas foi praticamente criada na capital brasileira. Ela se considera carioca candanga, e agora também paulista, onde mora atualmente e desenvolve seus projetos. Do muito contemplar o pai, Reinaldo Canto, fazendo música em casa e afora, ela mesma se tornou uma compositora. E não qualquer uma! Isa Canto já foi indicada ao Grammy. Mãe de Theo e Lia, abraça as mães por aí com suas melodias.

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foto – Tati Wexler

Lia Costa: O projeto acalanto foi fundado em 2005, já faz mais de dez anos. Explica um pouco desse projeto.

Isadora Canto: O Projeto Acalanto na verdade nasceu em 2001 junto com o meu filho, mas ele só tomou forças em 2005 quando eu lancei também o CD Vida de Bebê. O projeto trabalha vivência musical na gestação, o fortalecimento do vínculo da mãe com o bebê através da música. Também sou fundadora do “Materna Canto em movimento”, que é do mesmo trabalho só que com os bebês já nascidos até os dois anos. E sou fundadora do coral só de mães, o “Materna em Canto“.

Lia: Muitos estudos falam sobre a importância da música durante a gestação. Isso te impulsionou de alguma forma a compor o CD Vida de Bebê?

Isa: O CD Vida de Bebê nasceu da seguinte forma: eu comecei a aplicar o acalanto nas gestantes e comecei a perceber que muitas mulheres não tinham música na vida. Ou elas tinham constrangimento de cantar, ou simplesmente não existia muita música na vida delas. E como eu tinha essa vontade latente de passar minha experiência para as outras mães, eu decidi que ia compor um CD. E foi uma catarse porque durante a composição eu revivi tudo que eu vivi com meu filho na minha barriga. Sem menor pretensão achando que eu ia passar a minha experiência para as minhas gestantes e quando eu vi estava lá em Los Angeles sendo indicada ao Grammy.

Lia: A sua música de alguma forma empodera as mães. Mas de onde veio a sua força de mãe?

Isa: Eu nasci de uma cesárea agendada, uma cesárea completamente desnecessária e durante muito tempo isso foi muito triste pra mim. E eu descobri que se não fosse isso, esse corte desse vínculo pra depois a gente refazer ele de novo, eu não teria esse nascimento do Projeto Acalanto e de todos os meus projetos. Independente do parto, esse vinculo pode ser formado, e no meu caso através da música. Eu acredito muito no poder da conexão. A música tem frequência que ela eleva muito a alma, ela desata nós.

Lia: O que você considera ser o mais importante no relacionamento maternal?

Isa: Eu acho que o mais importante no amor é a confiança. A confiança de que “deixa comigo que eu vou cuidar de você, vou te acolher, vou te proteger”. Então acho que a confiança é o cerne. Porque quando você mostra que você confia, essa criança tem toda a liberdade pra fazer tudo com a cabeça no lugar. Inclusive o deixar ser, deixar brincar livremente. A partir do momento que você está trabalhando esse vínculo desde a gestação você tá mostrando que tem o amor, que essa criança é bem vinda, que essa criança é bem quista.

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foto – Terra Britto

Lia: Como foi a sua experiência com amamentação?

Isa: A minha experiência com amamentação é um relato bem difícil. Foi uma fase bem difícil da minha vida porque eu tive dois filhos, o primeiro de um parto normal muito violento, cheio de violência obstétrica, inclusive com a amamentação. Eu tive muita dor e não tive muito apoio nem muita informação porque eu era muito nova. Então eu consegui amamentar meu filho, mas por poucos meses, depois eu introduzi a mamadeira, o complemento. Sete anos depois que eu tive a minha filha em casa eu estava muito informada e achei que ia ser lindo, a minha amamentação tanto quando meu parto e não foi. Foi bem difícil, mas eu tive bastante apoio, bastante informação, precisei complementar apesar de dar o complemento chorando, mas eu fiz de tudo pra que ela mamasse. Eu chorava cada amamentação durante três meses, e aí a partir do terceiro mês em diante a coisa fluiu e eu amamentei ela até dois anos e meio. Então é uma história difícil, mas com um final feliz.

Lia: Amamentar envolve muito mito e até mesmo muito preconceito. Quais deles você já desmistificou?

Isa: Ah, a amamentação tem muitos mitos. Por exemplo: meu peito é pequeno, nunca vou conseguir amamentar… Eu mesma tenho seio pequeno e consegui amamentar. Bico invertido, “não vou conseguir amamentar” e consegue. Eu acho que hoje em dia tá havendo um movimento de tirar esses mitos.  A mulher pode amamentar, o leite é forte… eu venho de uma geração em que o leite em pó era incrível. Da minha família eu sou uma das únicas a ter parto normal e amamentar. Então são quebras de padrões que a gente precisa.

Lia: Tem mais música no forno? Se sim, dá uma palhinha por favor!

Isa: Tem uma musica nova que eu fiz a pouco tempo para aquelas mães tentantes. Aquelas mães que não conseguem engravidar e aí aquelas que estão na fila de adoção também.  Tive uma inspiração de um casal que eu conheço que estava tentando há dez anos e hoje ele tá gravida, e ela está na filha de adoção também. Então ela é…

Desde que eu pensei em ser mãe / você estava aqui / no meu coração/ no meu sentimento sim/ desde que meu corpo pediu o seu/ e o meu coração chamou pelo teu / eu sinto que você vem / todo tempo você tempo você tem / vem bebê / vem bebê / eu tô pronta pra você / vem bebê / vem bebê / eu tô pronta sim

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foto – Tati Wexler 

Dica de Livro – Os cartazes desta história

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O livro “Os Cartazes desta História” é uma iniciativa do Instituto Vladmimir Herzog, no projeto Resistir é Preciso – cujo tem por objetivo manter a memória dos brasileiros a luta da imprensa durante a ditadura (momento em que muitos morreram). A obra foi organizada pelo jornalista e produtor cultural Vladimir Sacchetta, com projeto gráfico de Kiko Farkas.

A compilação é de 300 cartazes, documentos e fotos contra regimes militares e desrespeito aos direitos humanos na América Latina. São seis capítulos que abordam os temas: resistências, anistia, movimentos, mulheres, trabalhadores e estudantes, solidariedade, mortos e desaparecidos.

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Vladimir alega que o pôster é uma manifestação que se cola na parede dando voz a ela em situações que o povo não tem a própria voz, é uma comunicação com a política. Na poluição visual de um cartaz o cidadão pode deitar os olhos ali e refletir sobre o assunto. “Tem uns [cartazes] que são muito chocantes, muito crus, de arrepiar”, declara. A compilação dos 300 cartazes e documentos visuais foram um ato político militante, organizado em anos.

“Não dá pra deixar a opressão massacrar você, um cidadão próximo ou longe de você, senão a gente não consegue a liberdade de expressão, de existir”, revela.

Para o jornalista, é importante resistir, cada um a sua maneira.  Vladimir Sacchetta tinha 13 anos quando a ditadura militar era vigente no país. Ele alega ter visto a ditadura de perto, dentro de casa, pois seu pai era militante de esquerda. “Fazer esse livro foi um mergulho nas próprias lembranças”, afirma.

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Apesar de toda barbárie sempre tem alguém que resiste. Na época da ditadura militar, houve uma profusão de jornais alternativos que apontavam para as minorias e para a falta de direitos humanos. “Hoje a população pobre, negra, moradores de rua, excluídos sofrem com ações violentas”, afirma. Vladimir acredita que seja possível atuar na resistência de forma consciente, fazendo a política “a sua maneira” em manifestações, na rua e até mesmo dentro de universidades.

Em toda a organização da coleção de cartazes militantes e resistentes, Vladimir admite que o que mais chamou sua atenção foi a solidariedade dos outros países com a dor brasileira e a violação dos direitos humanos. “E também como que depois disso tudo a sociedade se organiza em trabalho de formiguinha”, comenta. De acordo com ele, a história vai se repetindo com fato e tragédia, fato e tragédia… Mas quando se pensa que a esperança acabou diante de tanto absurdo, de repente surge um movimento invisível que fazem sua política de outro modo.

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Vladimir Sachetta

Filhos de Ururaí

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Foto via psiccy.com

Já não é surpresa nenhuma ter vendedores ambulantes nos transportes públicos do país. É rotineiro e cotidiano até comprar desde balas a carregadores de celular ali mesmo na volta do trabalho para casa. Às vezes tem alguém fora da sobriedade, reclamando da vida em alto e bom tom. Já não bastasse o barulho dentro da cabeça de cada um, os pensamentos secretos, por vezes embolados em qualquer som que o fone de ouvido transmite. O metrô cheio de pessoas cansadas, sonolentas até, com o olhar perdido pela janela onde a paisagem passa ligeira como os segundos, minutos, horas, dias… Como a vida. Barulho, silêncio incômodo, de repente, poesia.

“Eu tenho um sonho / mas eu vivo um pesadelo só por assistir a luta de alguns guerreiros / que na batalha diária pelo pão de cada dia / vários passaram aperreio”

Ninguém reclama. Pelo menos não verbalmente. Uns aumentam o tom de voz da conversa, outros coçam as mãos para o aplauso ao final. A maioria apenas reflete. O rapaz com boné de aba reta e roupas largas continua ritmando e gesticulando com a mão:

“E o bebe? Tá pra nascer / E o aluguel? Tem que pagar / E o que é que você vai fazer? Desistir?”, ele hesita e esboça um sorriso antes de continuar.  “Não, nem pensar”.

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Foto via Folha

O rapaz se autodenomina um Filho de Ururaí. Não apenas ele, mais dois ali no vagão. São os rapazes do leste de São Paulo, e, embora o bairro de São Miguel seja grande, os três se conhecem em meados de 2014 por “agirem” no mesmo território, como disseram. “Nossos trabalhos se cruzaram nessa trajetória de fazer sarau em São Miguel”, lembra o MC Lucas Afonso. O escritor, educador e poeta Rafael Carnevalli afirma que desde então ingressaram juntos no universo dos movimentos artísticos e assim se aproximaram. No caminho encontraram o produtor e ator Andrio Candido.

Não bastasse, Andrio é historiador e explica a história do próprio bairro, que deu origem ao nome do movimento de intervenção nos metrôs de São Paulo. São Miguel é um dos bairros mais antigos do estado, e já existia na época de José de Anchieta na batalha de Piratininga (lá por 1560. É, faz tempo). “Aqui era o território dos índios guaianás”, explica. O nome indígena do bairro é Aldeia de Ururaí, mas por conta da colonização se tornou São Miguel – nome de santo católico. Voltar ao nome original do lugar é o início da resistência dos Filhos de Ururaí. “Somos filhos dessa terra aqui”, reforça Candido.

A rima nos trilhos começou quando certa vez, no ano seguinte, quando estavam voltando de um programa, o trio conversava sobre criar algo em conjunto. “E aí a gente decidiu fazer poesia no trem”, conta Andrio. E lá iam os três: Andrio, Rafael e Lucas, entrando nos trens e recitando poesias ensaiadas. Então nasceu, no meio do povo, os filhos de Ururaí. Eles trabalham em prol da difusão da cultura e informação nas periferias de São Paulo e pretendem ser prolíferos. “A gente faz arte com o intuito de que ela seja uma ferramenta proveitosa, que ela seja útil além de ser entretenimento”, revela Candido. Para ele, além de auxiliar na evolução alheia, essa missão ajuda para que ele mesmo cresça.

Rafael conta que por serem educadores, também trabalham com turmas de escolas, ONGs e dão oficinas passando adiante a forma de expressão pela arte, especialmente literatura e poesia para jovens. “Faz parte até da democratização da informação, dos saberes, das lutas em sua diversidade mesmo”, declara. A gasolina dele é o reconhecimento, mesmo que seja de um aqui e outro ali. Esse reconhecimento pode ser de alguém que sempre alisou o cabelo sem saber por que, por receio de ser si mesmo. Com um sorriso, Rafael diz que é como se a pessoa sempre tivesse esperado ouvir aquilo para se libertar.

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Foto via allevents

Andrio compactua com o amigo, mas em particular sua motivação está na filha de nove anos. Como qualquer pai preocupado com o futuro da sua geração, ele quer construir um mundo melhor para que ela e todas as crianças cresçam. Uma vila, um bairro, uma rua, um local mais adequado com pessoas melhores para que sofram menos preconceito e agressão. Para que tenham mais ferramentas e meios de lidar com o mundo. Andrio solta junto com um breve riso: “minha missão é tentar deixar aqui um pouquinho melhor do que eu encontrei quando cheguei”.

“Pra gente ser o que a gente é hoje alguém lá atrás teve que fazer um corre, talvez não como o nosso, talvez até mais importante inclusive”, confessa Lucas, modesto. Para o músico, tudo isso é uma forma de retribuir aqueles que um dia se esforçaram: seus avós, seus pais e seus ancestrais. Aqueles que deram sangue e vida para tentar oferecer um mundo melhor, por mais clichê que isso possa soar.  “O contexto, a realidade que a gente vive me assusta muito, e esse medo que rodeia nossas vidas também é combustível pra seguir na caminhada”, reflete. Como não poderia ser diferente, deixa isso transparecer em suas músicas, na qual uma delas diz: Resistência, guerreiro/ Se entrega por inteiro/ Nosso suor não pode ir/ Pra boca do bueiro (Vai na Fé, Negô)

Da janela de casa, desde que nasceu, Lucas vê pessoas do lado de fora do mercadão, esperando o momento em que os alimentos não mais desejáveis para alguns seja jogado no lixo para outros aproveitarem. Homens, mulheres, crianças. Ele mesmo nunca precisou ir para lá procurar algo que ainda prestasse, mas não se acostumou e aparentemente nunca vai se acostumar com a desigualdade social gritante saltando ali mesmo, vizinha. A velha história de muitos tem pouco e poucos têm muito. Tem o quê, afinal, senão a mesma miséria? O Mc fala de um mundo ideal onde todos tenham acesso aos direitos de verdade, fora do papel. Com uma risada pela ironia da frase, diz que o ideal seria um lugar onde todos possam ter acesso a tudo que quem tem dinheiro tem acesso. Uma terra, uma casa, comida sem veneno, água potável, direito a lazer, acesso a cultura. É pedir muito? Rafael concordando com o amigo, diz que isso é o mínimo.

Nenhum deles tem olhar utópico sobre a situação atual, mas cada um deles faz a sua parte para que, que sabe um dia, as coisas estejam melhores. São adultos que não desistiram dos sonhos de criança, e que transbordam o coração em rima e arte. Andrio lançou um longa-metragem em 2014 gravado em São Miguel chamado “Um salve doutor”, que já está disponível no Youtube. Além disso, ele é educador artístico e organiza exibições com rodas de conversa sobre criação audiovisual de guerrilha e a presença do negro audiovisual. Também é autor do livro “Dente de leão” que é uma compilação de suas poesias desde que começou a atuar na cultura periférica. Rafael organiza o Sarau do bairro que já é tradição e o MAP (Movimento Aliança da Praça), além de três Slams (batalhas de poesia). Carnevalli também é escritor e autor do livro de poesias intitulado “Amador”. Lucas Afonso tem um EP chamado “A margem” e atualmente está gravando o primeiro álbum. E lá vão eles, expondo o cru e nu da sociedade pelos vagões, pelas rimas, pelas ruas, pela vida.

O QUE É QUE TEM NO LEITE DO NENÉM?

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PHOTOGRAPH BY GETTY IMAGES/CAIAIMAGE

A experiência de Karine Durães com amamentação começou cedo, quando ela tinha apenas 15 anos. “Foi muito bonita”, declara como sendo o motivo de sua decisão para ser nutricionista e consultora de aleitamento materno. Ela teve uma gravidez de risco e sua filha nasceu com 36 semanas de gestação, pesando 1k e 700g, o que é sinônimo de UTI. “Eu não fui orientada de início como poderia amamentar minha filha, apesar de ter um banco de leite no hospital”, alega relembrando a dificuldade que tinha do bebê pegar no peito depois da mamadeira.

Karine ainda revela que a gravidez de adolescência é uma gravidez marginalizada, e que os médicos não falavam com ela nem davam notícias. Ela foi se inteirar do assunto através de um livro chamado “Como e por que amamentar”, escrito pelo pediatra José Martins Filho. A adolescente aprendeu que o leite materno ajudaria sua filha a ganhar peso e sair do hospital o quanto antes. E assim aconteceu, dentro de 15 dias já estava fora da UTI. “Aquilo foi muito bom para a minha autoestima, eu me sentia como parte integrante da melhora da saúde da minha filha”, conta. Karine amamentou no peito até os 2 anos e 8 meses de idade da criança.

Embora a experiência de Karine tenha sido boa, várias mulheres sofrem na amamentação. Muitas mães que tem excesso de leite ou até mesmo a falta dele, sequer sabem que o Banco de Leite pode auxiliá-las com orientações acerca do aleitamento materno. Não são poucas as que passam dificuldades e apuros por falta de conhecimento sobre o assunto. É o caso de Elisângela Souza, mãe de um casal. “Confesso que nem tinha essa informação”, declara. Na segunda gestação o leite acabou em 42 dias e o bebê recorreu a mamadeira. Ela se sentia agoniada, triste e preocupada, pois diferente do que se diz, ela dava mais o peito para estimular o leite, mas mesmo assim não produziu. A mãe acredita que o motivo do leite ter “secado” cedo foi estresse. “Então, mamães, papais e demais familiares, procurem deixar a mãe que está amamentando o mais tranquila possível, colaborem”, pede.

Além da falta de leite, outro fator que atrapalha a amamentação são as dores no seio e bico, que podem machucar e muito. Joseli Gomes é mãe de quatro: três meninas e um menino. Ela doou leite no hospital após o parto em todas as gestações, mas teve dificuldade de amamentar por ter desenvolvido rachaduras no seio. “Sofri mais amamentando do que no parto”, afirma. A manicure confessa que chorava quando sabia que os filhos iam acordar. Durante a amamentação, ela apertava a mão de Ivo, seu esposo, para descarregar a dor que sentia. Fez tudo o que mandaram fazer, mas não tinha jeito. Ainda assim, diz ter valido a pena.

“Quando eles acordavam o leite já descia, é uma ligação de Deus, você sente”, revela em tom nostálgico.

Joyce Hoiser também não teve orientação na maternidade sobre o que deveria fazer para amamentar, e sua maior dificuldade foi os seios estarem muito grandes. Ela achava que a filha estava mamando quando na verdade não conseguia se alimentar. Como resultado, Lívia saiu da maternidade com amarelão. “Sentia-me um lixo por não conseguir amamentar a minha própria filha”, alega. Joyce revela que chorava trancada no banheiro, pois sentia muita dor e culpa. “Na verdade não sei no que eu sofri mais, no parto ou na amamentação”, afirma. Depois que um pedaço do bico do peito de Joyce caiu e ela foi levada a emergência, a doutora pediu para Lívia sair do peito. Aliviada, ela admite ter só então começado a olhar para a filha com amor.

“Se depois do parto as mães tiverem ajuda dos profissionais, dificilmente terão problema”, revela a consultora internacional em aleitamento materno e coordenadora do banco de leite do Hospital de Clínicas em Curitiba, e mestre em saúde da criança, Celestina Grazziotin. Ela atenta para a falta de orientação as mulheres no pré-natal em relação a ensinar posição e pega correta por exemplo. “Tem mulheres que deixam leite secar por falta de cuidado ou ajuda… Toda mulher que engravida prepara o corpo para a amamentação”, esclarece. Segundo ela, o banco de leite ajuda em casos de doentes, prematuros, gêmeos, trigêmeos e não bebês em casa que tem mãe. O objetivo é que a mãe consiga amamentar o filho. “Toda mulher que teve bebê, se teve apoio bem adequado, consegue ter leite e amamentar. Falta apoio”, adverte. A especialista orienta que as mães que tem dificuldade devem procurar ajuda profissional. Além disso, chama atenção para unidades de saúde a oferecer apoio a essas mães.

 

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Karine também concorda que um dos fatores que mais atrapalha a amamentação é a falta de informação em como amamentar de forma confortável. Quando o bebê consegue mamar de forma correta, o ato é totalmente indolor. Além disso, é importante se atentar aos fatores hormonais como adrenalina, sustos e cansaço extremo que podem atrapalhar na saída do leite materno. A ocitocina – hormônio liberado quando se está em situação de segurança – é responsável pelo leite sair do peito. Para ajudar a desenvolver ocitocina, soluções simples como um abraço ou toque de pele a pele ajudam.

“É importante apoiar essa mulher de todas as formas possíveis”, pede a especialista.

O âmbito social também pode gerar dificuldades na amamentação, pelo preconceito com crianças maiores que ainda mamam no peito ou com o aleitamento em público. De acordo com a nutricionista, a mulher precisa acreditar na capacidade do próprio leite.

De acordo com as especialistas, o leite materno é o alimento mais completo que existe no mundo, pois ele atende todas as necessidades de nutrientes e sais minerais da criança como: ômega 3, vitamina K, água, carboidrato, gordura, todos os micro e macro nutrientes disponíveis em quantidade adequada. O leite materno também tem substâncias que ajudam a proteger e aumentar a imunidade, além de conter fatores que melhoram e regulam a flora intestinal.

Segundo a Organização Mundial da Saúde e pesquisas científicas, o leite humano preenche necessidade de crianças até seis meses de vida. Após esse período o indicado é que alimentos especiais sejam introduzidos (as famosas papinhas) o que não exclui o peito. Geralmente a criança pode mamar no peito da mãe até os dois anos de idade, diminuindo gradativamente a frequência e introduzindo mais alimentos. “É uma vacina. Se ela quiser amamentar dois anos ou mais, permitam, ela que decida”, pede Celestina.

Depois desse período o ideal é que a espécie humana não beba leite industrializado ou animal. Para a estudiosa, o dito que é necessário beber leite para ter cálcio é um mito. As frutas, verduras e legumes tem fontes de elementos essenciais para viver bem até a velhice. “Só que é difícil introduzir isso na nossa cultura”, alega, completando que isso acontece por preguiça e urgência. Celestina apela que todos se desvinculem da força de pressão da indústria para o leite artificial. Também pede para profissionais da saúde e familiares apoiarem a mãe que está amamentando, confiando na capacidade dela de amamentar, uma vez que foi capaz de gerar.

Para Karine, a sociedade ainda tem preconceitos com amamentação, inclusive o meio médico que indica o desmame a partir de 1 ano de idade ou a introdução de fórmula infantil. “Nossa licença maternidade de 4 meses é uma licença que não ajuda a mãe a amamentar exclusivamente”, reclama dizendo que isso é um pecado em relação ao aleitamento materno. O escândalo que causa uma mulher amamentar em público também é algo que precisa mudar, porque de acordo com nutricionista, só consegue amamentar quem tem exemplos sobre amamentação. “O mundo inteiro ganha com a amamentação, então todo mundo deveria de alguma maneira incentivar o aleitamento materno”, incentiva.

Seja uma doadora

Para doar o leite materno, a mãe pode ir diretamente ao banco de leite para atendimento ou agendar uma visita a domicilio. No segundo caso, o contato é feito por telefone ou pessoalmente e em seguida a mulher passa por uma avaliação ou entrevista para conferir se ela está realmente disponível para doação. O próximo passo é agendar a visita e no dia receber um técnico de saúde que leva material esterilizado para coleta e então marcar o retorno, até que ela avise não ter mais excesso de leite.

Manual de Como Lidar com Gente Bem Educada

 

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Colagem via Rebloggy

Dia desses uns rapazes passaram por mim e gritaram um cordial “Bom Dia”, animados, indo trabalhar. Gentilmente respondi e sorri. Em questão de segundos um mal informado me solta: “nossa, tá fácil assim é?”. E esse é o relato sobre o dia em que fiquei constrangida por ser bem educada.

Engraçado. Somos todos seres humanos vivendo em um mesmo lugar, mesma cidade, mesmo estado, mesmo país, mesmo continente, mesmo mundo, mesma galáxia, mesmo universo… E ainda assim sequer nos cumprimentamos. Alguns por medo, outros por má educação mesmo e outros por indiferença. Seja lá o que for, estamos desacostumados com a gentileza e boa educação.

Infelizmente a sociedade caótica em que vivemos relaciona bons atos com interesse de qualquer espécie. Em certos casos, fico constrangida de conhecer rapazes novos, porque como uma garota hétero, muitas vezes minha gentileza e boa educação é confundida com intenções amorosas. Como trato todos igual, logo posso parecer uma garota muito “dada”, como se diz. E é péssimo quando você elogia alguém e a pessoa retruca um “tá querendo o quê?”. E isso me indigna. Por isso vos escrevo o Ultimate Manual de Como Lidar com Gente Bem Educada!

Se a pessoa te cumprimentou, cumprimente de volta! Se ela sorriu, que tal ao menos acenar? Se você recebeu um elogio, não quer dizer que o bem educado quer seu emprego, seu dinheiro, sua mão de obra ou seu corpitcho. Se alguém quis te conhecer e saber mais sobre você,  essa pessoa quer… Apenas isso, te conhecer e saber mais sobre você. Por você ser um ser humano e não (necessariamente) um “bom partido”. Naturalmente com o tempo alguma coisa pode acontecer, quem sabe? Mas não, não a princípio, é só boa educação mesmo.

Se você se machuca e a pessoa oferece ajuda, se ela sempre te escuta e aparentemente gosta de passar tempo com você; ela entende que você, como ela, é um ser biopsicossocial que precisa de relações saudáveis. Relacionamento nem sempre quer dizer relacionamento amoroso, para constar. Ah, inclusive, se a pessoa é carinhosa ela não quer te “pegar”, ela só é carinhosa. É simples. Uma pessoa bem educada é bem educada com todo mundo, não só com você. Observe.

Queridos lobos vestidos de ovelha (pessoas que são bem educadas e gentis apenas para comer pelas beiradas, ou seja, por interesse), não suje o nome dos bem educados. Pessoas que estão desacostumadas com os bons modos, sinto muito pelos motivos que te fizeram criar essa barreira, mas é sério, ainda há esperança. Sorria você também. Se você é uma pessoa bem educada e sofre desse mal entendido, não desanime nem deixe de ser bacana. Seja um contaminador de gentileza, bons modos e empatia. Como já tem sido.

 

Anne com “E”

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Olá! Acomode-se no seu assento, pega uma xícara de chá que temos muita coisa pra falar aqui.

Quem me conhece sabe que não sou uma grande fã de Netflix and chill porque odeio ficar sentada parada por muito tempo (sem estar produzindo algo). Mas, um fenômeno sobrenatural aconteceu quando conheci Anne. Anne Shirley. A ruiva me fez virar a noite para terminar de ver os míseros oito episódios da primeira temporada. E nas próximas linhas explico o que ela tem de tão maneiro.

Para começar a série veio de um livro. Uns livros, na verdade. São quatro, totalizando mais de mil e seiscentas páginas. Inclusive meu aniversário é em setembro e até lá você consegue fazer suaves prestações do box para mim. O romance foi escrito por Lucy Maud Montgomery e publicado em 1908. Na época foi lançado como um livro para todas as idades, mas hoje em dia dizem que é infantil. Particularmente, eu acho que os assuntos tratados no enredo são muito importantes para se restringir ao púbico infantil. E na verdade são assuntos bem adultos.

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o livro ❤

O livro ganhou 21 adaptações, sendo a primeira delas um filme mudo em 1919 dirigido por William Desmond que é considerado um longa perdido. Ganhou um musical em 1956 e animação em 2005. A primeira série foi feita em 1952 pela BBC. A adaptação mais famosa é de 1985 com o drama canadense de mesmo título do livro. São 3h19m de duração pela direção de Kevin Sullivan. E agora a mais nova versão que saiu esse ano, “Annie with an E”, a série da CBC/Netflix ( que você pode ver o TRAILER AQUI)

Beleza, vamos ao que interessa: por que essa história é tão importante?

Temos aqui assuntos polêmicos, necessários e (infelizmente) atuais. Pois é, sociedade, a luta continua. Olha a listinha:

  1. Adoção ❤
  2. Trabalho/abuso infantil
  3. Preconceito/Bullying
  4. Feminismo/sexismo
  5. Crítica aos padrões da sociedade em relação a beleza, gênero e educação.
  6. Crítica a hipocrisia e intolerância da igreja
  7. Crítica a “forminha” de ser humano

Algumas dessas coisas ficam claras já nas primeiras cenas do primeiro episódio (que tem mais de 1h de duração). Eu não vou falar tudo e dar spoilers porque 1)provavelmente você não gosta de spoilers, 2) você provavelmente não quer ler muito porque tem preguiça e 3) eu quero muito que você assista a minha série favorita 🙂

Estamos falando da época que eletricidade era coisa de gente podre de rica. Muito muito tempo atrás. Não consigo nem imaginar isso. Nessa época tão tão distante encontramos Anne Shirley, uma garotinha excepcional. Daquelas que falam “pelos cotovelos”. Mas diferente do que você pode estar imaginando, ela não fica falando besteiras. Anne gosta de criar histórias, de usar a imaginação. Aliás, Anne adora ler e usar as palavras grandes dos livros no seu vocabulário. Ela ama as flores, as árvores, a natureza em sua essência! E ela é simplesmente adorável. Anne tem um poço de criatividade vindo de um rio de imaginação, o que é ótimo. Mas na maioria das vezes ela usa isso para fugir da sua triste realidade.

Quando Matthew Cuthbert chega para buscar o garoto que adotou de um lar, não encontra ninguém na estação de trem senão uma garotinha ruiva com cabelos devidamente trançados. Calmo que só, o senhor não consegue dizer nada para a menina (até porque ela não para de falar). Anne está felicíssima de ter um lar, depois de ter trabalhado por anos como doméstica sendo terrivelmente maltratada. Durante todo o percurso ela fala sobre a beleza do lugar, sobre os livros que gosta de ler… E durante o percurso todo ela fica se beliscando para ter certeza de que não é um sonho.

Mas chegando na casa dos Cuthbert, a irmã de Matthew, Marilla, diz que Anne precisa voltar para o orfanato porque eles pediram um menino e não uma menina. Queriam alguém que pudesse ajudar na fazenda, coisa que uma garota – obviamente – não podia fazer. Anne fica arrasada, em choque, se sentindo mais rejeitada do que nunca e chora muito em pensar que terá que ir embora de Green Gables e daquela casa adorável.

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Ok, minha crítica começa aqui. Quando estamos falando de adoção o assunto é muito sério. Anne já tinha vivido muita coisa para uma criança da idade dela, sofrido demais, e quando finalmente encontra um lar, vem aquele balde de água fria transbordando rejeição. Por isso o processo burocrático é tão chato e tão importante. Especialmente porque, durante a série toda, quando tem alguma situação que a deixa triste ou com raiva, ela simplesmente chora e corre. O que mostra que ela não tem um grande leque de solução de problemas, que quer dizer que ela não tem inteligência emocional ou maturidade psicológica. Adivinha por que? Porque isso se constrói em casa e Anne nunca teve uma casa.

Em um surto de querer ser aceita, ela diz que pode fazer as coisas dentro da casa e questiona o motivo de as meninas serem mais limitadas do que os meninos. Isso é um assunto que a série toca muito  em todos os episódios. Então além de um alerta para não só adoção, mas educação dos filhos, também entramos em contato com a importância do feminismo. Mas por enquanto vou falar somente do primeiro episódio para não dar spoilers. Acontece que eles tem uma vizinha muito chata, que nem me lembro o nome, mas a mulher não gosta da ideia de adoção e muito menos de órfão – não diferente de todas as outras pessoas da série com exceção é claro dos Cuthbert. E quando ela vê Anne já vai reclamando de que se a adotaram não foi pela aparência porque ela é muito magra, muito sardenta e tem um cabelo vermelho horrível. Anne dá um surto e fala poucas e boas para a mulher antes de sair correndo e chorando.

Isso não contribuiu de forma alguma para que a dona Marilla insistisse em ficar com ela. Inclusive Marilla levou Anne até uma mulher lá querendo devolver (meu Deus, que coisa mais absurda, como se fosse mercadoria) ou trocar Anne por um garoto. Daí a mulher disse que não tinha meninos, mas que Anne podia ficar como doméstica de um lar ali perto. Só que Marilla não gostou da casa da dita cuja cheia de filhos, brava que só, e teve um pouco de piedade deixando Anne voltar e dando a ela um prazo de cinco dias para se adaptar com os Cuthbert. E, felizmente, Matthew ajudou Anne a esfriar a cabeça e pedir desculpas para a tal da vizinha sem educação. E depois…

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Nem acabei de falar do primeiro episódio maaaaas… Eu te obrigo neste momento a abrir a sua conta do Netflix ou pedir pro amiguinho emprestar a dele e assista. A fotografia é incrível, a trilha sonora sensacional e o enredo excepcionalmente fabuloso demais da conta. Quem sabe em breve eu volto para falar mais sobre cada um desses pontos…? Quero ver de novo. Beijos, fui.

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não falei dele mas você QUER conhecer ele também… Mwahahha

 

 

Atenção rapazes: chorar tá liberado

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foto de Maud Fernhout

Quando entra em contato com o mundo pela primeira vez, o recém-nascido chora. Do contrário não poderia viver se o pulmão não abrisse expulsando o líquido de dentro dele trocando por oxigênio. No primeiro minuto de vida aprendeu espontaneamente que chorar faz parte de viver. Quando ralou o joelho pela primeira vez ou quebrou um osso não conteve as lágrimas nem o grito alto para que alguém o ajudasse, ele não seria capaz de estancar a dor e o sangue sozinho. Quando se sentiu rejeitado, humilhado, quando soube daquela história, quando sentiu a sua própria história… Eles choraram também. Mesmo assim, eles continuam escutando repetidamente que “homem não chora” e que devem imediatamente “engolir o choro”.

Eu choro, tu choras, nós choramos

Fisiologicamente falando, as lágrimas são gotinhas produzidas pelas glândulas lacrimais. Elas são divididas em três categorias: as lubrificantes, que permitem os olhos não secarem e, assim, ser possível enxergar; as reflexas que aparecem quando algo cai no olho ou cebolas são cortadas; e finalmente as emocionais. Existem benefícios nelas, a saber a umidade, nutrição e limpeza dos olhos. Mas, além disso, muitas pessoas afirmam que depois de chorar se sentem melhor. A mestra em desenvolvimento humano, Luciene Bandeira*, revela porque isso acontece: “depois de chorar normalmente nossa frequência cardíaca diminui e entramos em estado mais calmo, como se aliviasse”. Mesmo assim, opiniões de pesquisas sobre o humor melhorar após o choro divergem.

O psicólogo Flávio Mesquita ressalva a importância de observar a situação do choro, se há valor objetivo que o sustente com legitimidade. “Uma expressão exacerbada de padrão de choro pode indicar uma fragilidade emocional como o estabelecimento de um quadro depressivo”, explica Mesquita. Salvo casos específicos, chorar faz parte da natureza humana e por si só não pode ser classificado como uma fraqueza. “Ao contrário”, continua Flávio, “isso pode ser até uma expressão de força”, uma vez que a pessoa consegue enfrentar ou ter uma visão clara da perspectiva do contexto expandido do qual ela está inserida. O importante mesmo, como sugerem os especialistas, é conhecer suas emoções, saber nomeá-las e controla-las, ao invés de reprimi-las.

Em terapia quando o indivíduo chora, é considerado o contato mais profundo consigo próprio. Isso acontece porque quando a pessoa entra se encontra com algum conteúdo, memória ou reminiscência que é carregada de uma carga emocional importante, ela é acompanhada da expressão do choro.  “Quando você se priva disso, você está se furtando o direito de exercer alguma coisa para qual somos programados pela natureza”, afirma Flávio. O filósofo Friedrich Nietzsche já refletia: “transforma-te no que tu és”. Para o psicólogo existe um poder enorme de emancipação, desenvolvimento e amadurecimento pessoal quando se permite entrar em contato com a sua essência, aquilo que é mais profundo.

De acordo com a terapeuta Dilene Ebinger é possível expressar emoções – sejam elas positivas ou negativas – através da fala, atitudes e também pelo choro. “Expressões que não são expressas se alojam na carne, elas se transformam em dores”, explica. Para Dilene, o choro não é sinônimo de fraqueza, mas de muita força. “Somente aquele que é centrado, que sabe o que quer é capaz de expressar suas emoções com tranquilidade e com segurança”, declara. Isso acontece porque esse indivíduo sabe que pode expressar suas emoções e continuará sendo aceita pelas pessoas ao redor.

No llores! Cry baby cry

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via Pinterest

Gustavo Santos foi ensinado desde a infância que chorar é coisa de menina, porque é demonstração de fraqueza. Quando era moleque se caísse e se machucasse, não chorava de jeito nenhum, tinha que ser forte. “Era angustiante”, lembra. Gustavo acreditou nisso por muitos anos, mas com o tempo foi criando maturidade e entendeu que não há problema nenhum em demonstrar seus sentimentos. “Faz parte da vida. Lágrima é lágrima, sentimento é sentimento”, explica ao falar que não há diferença no pranto feminino e masculino. Até para chorar de rir. Com isso, Gustavo aprendeu que tanto a alegria quanto a tristeza passam, e ambos os momentos devem ser vividos sem censura. “Desabafei aí contigo”, ri.

Chorar ou não chorar: eis a questão. A percepção do choro como algo aceitável socialmente ou não, é cultural e varia ao longo da história. Se hoje no Brasil é estranho o homem chorar enquanto a mulher tem livre acesso as lágrimas, na Grécia Antiga era o contrário. Luciene Bandeira explica que a expressão dos sentimentos antigamente era algo masculino. Já no período medieval tanto gargalhar quando chorar em público não gerava qualquer constrangimento. No começo da Época Moderna por sua vez, sobretudo no ocidente, é notório um processo civilizador de disciplinamento desses hábitos.

“Com o refinamento, o chamado pudor, os atos que eram rotineiros passaram a ser mais discretos no âmbito privado”, afirma a mestre. As lágrimas, portanto, ficaram restritas a intimidade de cada um. As famosas carpideiras da Era Vitoriana eram contratadas para chorar nos velórios porque era mal visto chorar em público em enterros, mesmo que este fosse do seu próprio filho. No século XX a situação se inverteu pela diminuição das fronteiras que separam a esfera pública e privada. Embora a cultura latina considere inconveniente, nos dias de hoje é comum em países islâmicos que homens chorem.

É na primeira infância do menino que os padrões de comportamento “macho” são disseminados. Na busca pela formação de homens emocionalmente fortes, alguns gestores perceberam que ao proibir o choro estão criando homens violentos ou extremamente tímidos, de acordo com a especialista. Meninos que podem usar livremente sua capacidade de chorar tendem a ser mais capazes de compreender e validar a dor do outro.

Mulheres choram mais?

É fato que as mulheres choram mais e de forma mais intensa do que os homens. A psicóloga clínica Brisa Nepomuceno explica que isso acontece em resposta ao hormônio prolactina que é envolvido com a amamentação, embora todas as mulheres tenham independentemente de amamentar ou não. Por outro lado, altos níveis de testosterona podem inibir as lágrimas. Estudos apontam que mulheres com mais testosterona e menos prolactina choram menos na fase adulta, enquanto até a adolescência meninos e meninas chorem na mesma proporção. Luciene comenta que isso pode ter cunho cultural.

Brisa ressalta que nas crianças, assim como nos idosos, o controle sobre as expressões e emoções é menos eficiente. “O córtex pré-frontal é hipofuncional, o que torna mais difícil segurar o choro e as emoções”, explica. Em linhas gerais o gênero feminino tende a ser mais emotivo do que o masculino, por sua vez tendendo a racionalidade. Há também forte influência do padrão cultural da sociedade em que esse homem ou essa mulher estão inseridos. “A menina é franquiado o direito do choro”, comenta Flávio Mesquita. Em suma se uma pessoa tende a ser emotiva ou não depende mais da bagagem da mesma.

“Engole esse choro ou vai apanhar”

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foto de Maud Fernhout

Robert Machado era a típica criança chorona. Por isso escutou repetidas vezes “para de chorar, homem não chora”. E ele parou. Trocou suas lágrimas por estresse, o que ele não imaginava que afetaria sua vida futura. A personalidade de Robert mudou, agora ele era uma pessoa mais fria e calculista. Sentia fortes dores de cabeça quando queria chorar, e o oftalmologista disse que seus olhos estavam muito secos. A personalidade dele que estava bloqueada pelas lágrimas trancadas, foi libertada quando, de novo, deixou as lágrimas livres. “Isso não é uma coisa feminina, é uma coisa humana”, relata.

A psicóloga adverte que segurar as lágrimas frequentemente desenvolve um certo grau de instabilidade psicológica. Guardar sentimentos negativos e ignorar emoções pode dar início a um quadro depressivo. “Segurar o choro traz desconforto físico e emocional”, afirma. Quando a pessoa segura o choro, Brisa observa que ela contraí os músculos do peito, ombros e garganta, impedindo soluços. Os lábios enrijecem e até mesmo as sobrancelhas são posicionadas de forma a evitar que as lágrimas surjam. As contrações também acontecem nos vasos sanguíneos, estômago e intestinos. “Alguns indivíduos relatam que após segurarem o choro tiveram crises de enxaqueca, vômitos e dores estomacais”, declara a psicóloga.

Tirar a oportunidade de choro contribui negativamente para a cristalização de emoções que ficam reprimidas na psique e podem pedir contas ao longo da existência. Flávio explica que “engolir” o choro em uma situação de luto, por exemplo, pode protelar o mesmo. Não somente isso, mas da perspectiva psicossomática a repressão de emoção pode ter repercussão fisiológicas como câncer, doenças autoimunes, asma…

Para o psicólogo, a frase “homem não chora” tem uma conotação de desejo ou pressão ideológica contaminada por uma cultura que tende a ser machista. Ela aponta para o masculino falando o que ele não deve fazer mais do que uma constatação do que ele não faz. Flávio explica que isso acarreta em um potencial danoso muito maior, pois pode gerar sentimento de inadequação no homem que percebe a capacidade de chorar. “Como que eu choro? Então não sou homem? Sim, o homem chora”, declara.

“Não chorar nunca vai exigir um elevado controle do comportamento e isso é desgastante”, afirma Luciene. Esse desgaste pode ser comparado a um estresse agudo. Pode não parecer muita coisa no mundo estressante atual, mas a exposição a altos níveis de estresse por tempo prolongado causa mudanças a longo prazo nos níveis de cortisol – hormônio regulador do estresse. Se ainda não ficou claro: isso pode causar alergias, doenças autoimunes, entre outros. Parece assustador? Luciene alerta que reprimir sentimentos pode desencadear doenças psicossomáticas, a exemplo de depressão.

Se por um lado segurar o choro pode causar problemas, o choro exacerbado também é sinal de alerta. Se o comportamento que o individuo expressa diante de situações problemáticas se resume a chorar, isso é uma demonstração de limitação no repertório comportamental da mesma. Ou seja, dificuldade para superar as adversidades. “Depois do choro é importante que venha ação, reflexão, pedido de ajuda ou auxilio, porque aí ele se torna parte de uma expressão comportamental mais elaborada”, esclarece Luciene.

Brisa compara o imperativo “engole esse choro” ou o dito popular de que “homem não chora” com alguém que está com muita sede e lhe é negado um copo de água. Ela afirma que quando a pessoa suporta suas dores sozinha ela adoece com mais frequência e de maneira mais grave do que aquelas que expressam suas emoções e dores através das lágrimas.

O dito popular de que “homem não chora” é, para a terapeuta Dilene, uma infelicidade. Ela acredita essa frase é uma repressão machista de uma sociedade da qual o homem deve ser muito forte e duro, impedido de demonstrar emoções. Esse pensamento pode enrijecer, insensibilizar e trazer problemas para uma vida toda. Quando se chora, uma emoção está sendo transmitida. “Sua emoção é importante pra mim, tem significado e eu aceito e recebo”, fala Ebinger sobre a educação emocional ao lidar com o choro infantil. Dessa forma, o sujeito se sente aceito, amado e importante.

O choro delEs

Manoel Vicente já segurou o choro para não demonstrar fraqueza. Se considera emotivo, especialmente com suas experiências do passado. “Nós homens temos muita responsabilidade pra sociedade. O ato de chorar também é um pedido de socorro a quem confiamos”, declara.

Thiago Mota aprendeu em casa que homem engole o choro e vai resolver o problema. As pessoas do seu convívio acham que ele é uma pessoa fria, mas ele admite deixar rolar aquele suor dos olhos com histórias de superação.

Jefferson Braun chorou quando a namorada disse que o amava. Ah, em filmes também. O jornalista crê que acima de qualquer estereotipo, todos são seres humanos. “Se o homem chora ou não isso não vai fazer a virilidade dele ficar em cheque”, afirma. Ele cita a especialista em desenvolvimento humano Heloisa Capelas ao declarar que o machismo e o patriarcado afetam os homens pelos paradigmas e estereótipos impostos pela sociedade, o que acaba dificultando lidar com as próprias fraquezas.

André Apolinário geralmente chora de estresse. Estresse causado justamente por guardar muito seus sentimentos. Inclusive quando a entrevista foi feita, fazia dois dias que ele tinha chorado pela ultima vez. “Só chorar não resolve o problema, tem que decidir se levantar e tocar a vida”, declara. André pede para que os meninos chorem. Para ele, chorar não é fraqueza, mas sim força pela demonstração de humanidade.

Victor Rocha de pronto disse: “eu choro pra caralho”. O triatleta discorda que lágrima tenha algo a ver com fraqueza. Atualmente está fazendo intercâmbio e não esconde ter chorado muito quando foi morar sozinho. “Mas hoje estou bem”, conta. Para ele, homem pode chorar, e ainda aconselha: se possível abraçado com alguém que você ame.

“Homem deve chorar, embora eu já não lembre o que seja isto!”, alega o fotógrafo Adeilson Santos. Ele foi criado em uma família clássica nordestina do “se chorar apanha”. Quando seu primeiro filho nasceu, ele tinha se preparado para abrir o berreiro, no entanto relata que na hora conteve inconscientemente a emoção. Adeilson afirma que a dor no peito dói muito além de uma lágrima que escorre no rosto, e nem sempre o choro é sua forma de expressão. O não chorar não faz dele mais homem e nem menos sensível.

William Bontorin acredita que homem evita chorar por causa da imagem. “Só que eu já saí dessa vida, choro mesmo”, brinca.

Daniel Perla tem uma senhora barba de impor respeito quando se vê. Era censurado para não chorar caso sentisse dor ou medo. Com a sua própria experiência aprendeu que prender o choro pode ser prejudicial, por isso diz: “chorem quando der vontade. É uma forma natural de expressão”.

Quando era “pirralhão”, Keny Ebinger (sim, filho de Dilene) sempre escutava dos colegas da escola que homem não hora. No entanto quando chegava em casa e conversava com sua mãe ela lhe chamava a atenção para o perigo dessa frase. “Os homens também têm glândulas lacrimais, então tem que chorar mesmo”, ri Ebinger, que admite gostar muito de chorar por alegria.

 

 

“Os brazuca”

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ilustração via sollas.com.br

Para ouvir essa crônica clique aqui 🙂

O povo brasileiro é um povo engraçado. Compra camiseta com frase em inglês, bonita que só, mal sabendo que exibe algo do tipo “beijo traseiro de cachorro”.  Aliás, brasileiro adora um gringo. Faz a festa quando chega um estrangeiro e quer mostrar todo o nosso verde e amarelo. Aí vem os tios das Europa como se diz, e já mete logo goela abaixo do turista um feijão com farofa, que não pode faltar. Ah, sem se esquecer da coxinha, brigadeiro, açaí…

Parece até irmão mais velho do país. Isso porque acha que pode bater e chamar de feio. Mas ai! Ai daquele que falar que o brasil é ruim. Fica sentido, demonstra que ama mesmo sem verbalizar o orgulho ferido. Ainda assim sonha em sair do país, ir pra fora! Quem não? Aí encontra o gringo e fala lá uma língua que só ele entende. Mas fala. Quer falar, precisa falar. Brasileiro gosta de conhecer, é curioso, corajoso. Bota a cara a tapa.

Acha que sabe falar espanhol porque diz ser fácil. Inclusive fala dos hermanos como se fossem primos distantes, enquanto dividem a mesma América. Mas não, brasileiro não acha que é latino. Brasileiro é brasileiro. E seria diferente? Temos a amazônia, temos Pelé, temos Tom Jobim e a Garota de Ipanema. Só não fala muito de política e economia porque a casa tá uma zona. Mas aí a gente solta um “pode entrar, mas não repara a bagunça” e tira sarro da própria desventura.

É meu caro, tem que rir pra não chorar. Dizem por aí que brasileiro não desiste nunca. É aquele trouxa apaixonado que peleja. Tem uma achada união no braço aberto tal qual o Cristo carioca, pronto pra dar aquele abraço. Aquela alegria desmascarada do carnaval, os dribles do estádio e o joelho ralado de tanto pedir piedade no alto do morro. Pois é, enquanto brasileiro é filho de uma pátria amada, o brasil é uma mãe sofrida e gentil.

Bomba, para malhar isso aqui é bomba?!

(Se você não pegou a referência do título relembre esse fenômeno musical clicando aqui )

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Ilustração de Jonas Bergstrand

Victor entrou na academia com 14 anos de idade pelo incentivo de sua mãe por motivos primordialmente de saúde. O médico o diagnosticou como ectomorfo, como se chama cientificamente o sujeito “mirrado”. No início ele não gostava de ir a academia e por isso era desleixado em suas obrigações com a mesma. Mas percebeu que isso não surtiria nenhum efeito e decidiu mudar. Hoje Victor Lelis é youtuber fitness e tem sua própria loja de suplementos.

Ele lembra em meio a curtos risos da primeira vez que tomou um proteico, depois de um ano na academia. A novidade de suplemento deixou sua mãe desconcertada, pois na época não se tinha acesso a informação como atualmente. “As pessoas sempre confundiam suplemento com bomba, que na verdade não tem nada a ver”, diz. Mesmo tendo consciência de que o suplemento não era um anabolizante, ele admite ter errado em não consultar um profissional de nutrição antes de começar a usar. A falta de orientação física resultou em uma lesão no ombro que rendeu duas semanas sem exercícios. Além disso, Victor acabou engordando muito por acreditar que o alto consumo de calorias iria ajuda-lo a desenvolver melhor os músculos.

O professor de boxe e especialista em treinamento desportivo, Carlos Bruce, adverte que no meio do fitness nenhuma droga é tão importante quanto os pilares do treinamento. Os três pontos essenciais são: treino com intensidade, descanso e alimentação adequada. Tanto Bruce quanto Vitor realçam que coisas conquistadas com facilidade cobram dívidas das quais serão pagas com dificuldade no futuro. Mais do que isso, o treinador desaconselha a automedicação.

“Desconfie das facilidades e tenha muita paciência”, conclui.

De acordo com a classificação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), suplementos são alimentos com fins especiais para atletas, ou seja, pessoas que fazem esforço muscular intenso. A educadora em alimentação e saúde Isabelle Zanoni afirma que o uso de suplementos ou anabolizantes pode melhorar o desempenho físico de forma saudável uma vez que o uso seja controlado e acompanhado por especialistas.  Em poucas palavras, anabolizante é uma substância que promove o anabolismo, ou seja, crescimento. Diferente de muitos alimentos que se encaixam nessa categoria, ela explica que os anabolizantes são hormônios esteroides geralmente derivados da testosterona. Assim, eles promovem maior perda de gordura e ganho de massa.

A procura pelas “bombas” acontece pela promessa de ganho de força muscular e aumento da mesma. Além disso, o anabolizante tem uso benéfico para tratamento de algumas doenças como pacientes de AIDs e anorexia justamente por ajuda-los a voltar ao peso normal. Eles existem na forma de comprimidos, cápsulas e injeções. De acordo com Carlos Bruce, a injeção mal aplicada causa implicações negativas perpétuas. Quando uma pessoa que não precisa de mais hormônio toma esse tipo de medicação, pode haver muitos efeitos colaterais, a saber, desde infecções na pele até evolução de alguns tipos de câncer e diminuição da produção hormonal natural entre diversos problemas. “Cada organismo reage de formas diferentes”, relata Bruce.

Quando usou anabolizantes, Victor teve acompanhamento médico, mas admite não ter gostado do resultado em comparação ao que esperava. Pelo contrário, teve efeitos colaterais como tonturas, dor de cabeça e espinhas. “Pra mim não valeu a pena e eu não indico de forma alguma ninguém utilizar isso.”, declara. Mesmo que não recomende a utilização para pessoas que querem ostentar o corpão na praia ou no carnaval, ele entende que para situações como competições de fisiculturismo é impossível não utilizar as famosas bombas.

Isabelle não acredita que essas substâncias sejam viciantes, mas explica o que acontece na prática. “A pessoa sempre vai querer buscar algo a mais e o uso acaba sendo recorrente, muitas vezes em doses mais altas”, diz. Ela gostaria que a população de forma geral se preocupasse mais com saúde e bem estar, respeitando o próprio corpo e seus limites. “Ter um estilo de vida saudável é para sempre, e dieta tem que ser algo incorporado”, completa.

Victor conta que já passou por preconceito por levar isso a sério, especialmente pelo dito popular de que pessoas como ele têm muito músculo e pouco cérebro. Ele é prova física contra esse pensamento, pois estuda Design Gráfico e fala inglês fluentemente. “Eu pratico musculação na verdade para me sentir bem comigo mesmo, levo fitness como um estilo de vida saudável”, conta o youtuber. O equilíbrio entre os pilares que Carlos Bruce comenta na verdade promovem o intelecto de qualquer pessoa, uma vez que corpo e mente estão estritamente ligados. Por isso o acompanhamento profissional é tão importante.

O maromba acredita ser possível atingir ótimos resultados sem a utilização da suplementação. “Na verdade o alimento sólido é muito melhor e muito mais rico em nutrientes no modo geral do que a suplementação”, afirma Lelis. Ele recomenda o uso de suplemento para praticidade, usando o exemplo de alguém que tem pouco tempo para se alimentar bem. Existem casos específicos como a creatina (substância auxiliadora no ganho de força) que suplementa um quilo de carne vermelha.

Lelis cresceu muito – em todos os sentidos da sentença – desde que começou a praticar musculação até hoje. Antes, pensava que era só ir à academia e construir o corpo que quisesse.

“A musculação é algo de 24 horas por dia, não só daquelas duas horas que você fica dentro da academia”, esclarece Victor.

Assim como os profissionais da área, ele enfatiza sobre a importância da boa alimentação e descanso apropriados para resultados mais efetivos e satisfatórios.