O QUE É QUE TEM NO LEITE DO NENÉM?

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PHOTOGRAPH BY GETTY IMAGES/CAIAIMAGE

A experiência de Karine Durães com amamentação começou cedo, quando ela tinha apenas 15 anos. “Foi muito bonita”, declara como sendo o motivo de sua decisão para ser nutricionista e consultora de aleitamento materno. Ela teve uma gravidez de risco e sua filha nasceu com 36 semanas de gestação, pesando 1k e 700g, o que é sinônimo de UTI. “Eu não fui orientada de início como poderia amamentar minha filha, apesar de ter um banco de leite no hospital”, alega relembrando a dificuldade que tinha do bebê pegar no peito depois da mamadeira.

Karine ainda revela que a gravidez de adolescência é uma gravidez marginalizada, e que os médicos não falavam com ela nem davam notícias. Ela foi se inteirar do assunto através de um livro chamado “Como e por que amamentar”, escrito pelo pediatra José Martins Filho. A adolescente aprendeu que o leite materno ajudaria sua filha a ganhar peso e sair do hospital o quanto antes. E assim aconteceu, dentro de 15 dias já estava fora da UTI. “Aquilo foi muito bom para a minha autoestima, eu me sentia como parte integrante da melhora da saúde da minha filha”, conta. Karine amamentou no peito até os 2 anos e 8 meses de idade da criança.

Embora a experiência de Karine tenha sido boa, várias mulheres sofrem na amamentação. Muitas mães que tem excesso de leite ou até mesmo a falta dele, sequer sabem que o Banco de Leite pode auxiliá-las com orientações acerca do aleitamento materno. Não são poucas as que passam dificuldades e apuros por falta de conhecimento sobre o assunto. É o caso de Elisângela Souza, mãe de um casal. “Confesso que nem tinha essa informação”, declara. Na segunda gestação o leite acabou em 42 dias e o bebê recorreu a mamadeira. Ela se sentia agoniada, triste e preocupada, pois diferente do que se diz, ela dava mais o peito para estimular o leite, mas mesmo assim não produziu. A mãe acredita que o motivo do leite ter “secado” cedo foi estresse. “Então, mamães, papais e demais familiares, procurem deixar a mãe que está amamentando o mais tranquila possível, colaborem”, pede.

Além da falta de leite, outro fator que atrapalha a amamentação são as dores no seio e bico, que podem machucar e muito. Joseli Gomes é mãe de quatro: três meninas e um menino. Ela doou leite no hospital após o parto em todas as gestações, mas teve dificuldade de amamentar por ter desenvolvido rachaduras no seio. “Sofri mais amamentando do que no parto”, afirma. A manicure confessa que chorava quando sabia que os filhos iam acordar. Durante a amamentação, ela apertava a mão de Ivo, seu esposo, para descarregar a dor que sentia. Fez tudo o que mandaram fazer, mas não tinha jeito. Ainda assim, diz ter valido a pena.

“Quando eles acordavam o leite já descia, é uma ligação de Deus, você sente”, revela em tom nostálgico.

Joyce Hoiser também não teve orientação na maternidade sobre o que deveria fazer para amamentar, e sua maior dificuldade foi os seios estarem muito grandes. Ela achava que a filha estava mamando quando na verdade não conseguia se alimentar. Como resultado, Lívia saiu da maternidade com amarelão. “Sentia-me um lixo por não conseguir amamentar a minha própria filha”, alega. Joyce revela que chorava trancada no banheiro, pois sentia muita dor e culpa. “Na verdade não sei no que eu sofri mais, no parto ou na amamentação”, afirma. Depois que um pedaço do bico do peito de Joyce caiu e ela foi levada a emergência, a doutora pediu para Lívia sair do peito. Aliviada, ela admite ter só então começado a olhar para a filha com amor.

“Se depois do parto as mães tiverem ajuda dos profissionais, dificilmente terão problema”, revela a consultora internacional em aleitamento materno e coordenadora do banco de leite do Hospital de Clínicas em Curitiba, e mestre em saúde da criança, Celestina Grazziotin. Ela atenta para a falta de orientação as mulheres no pré-natal em relação a ensinar posição e pega correta por exemplo. “Tem mulheres que deixam leite secar por falta de cuidado ou ajuda… Toda mulher que engravida prepara o corpo para a amamentação”, esclarece. Segundo ela, o banco de leite ajuda em casos de doentes, prematuros, gêmeos, trigêmeos e não bebês em casa que tem mãe. O objetivo é que a mãe consiga amamentar o filho. “Toda mulher que teve bebê, se teve apoio bem adequado, consegue ter leite e amamentar. Falta apoio”, adverte. A especialista orienta que as mães que tem dificuldade devem procurar ajuda profissional. Além disso, chama atenção para unidades de saúde a oferecer apoio a essas mães.

 

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Karine também concorda que um dos fatores que mais atrapalha a amamentação é a falta de informação em como amamentar de forma confortável. Quando o bebê consegue mamar de forma correta, o ato é totalmente indolor. Além disso, é importante se atentar aos fatores hormonais como adrenalina, sustos e cansaço extremo que podem atrapalhar na saída do leite materno. A ocitocina – hormônio liberado quando se está em situação de segurança – é responsável pelo leite sair do peito. Para ajudar a desenvolver ocitocina, soluções simples como um abraço ou toque de pele a pele ajudam.

“É importante apoiar essa mulher de todas as formas possíveis”, pede a especialista.

O âmbito social também pode gerar dificuldades na amamentação, pelo preconceito com crianças maiores que ainda mamam no peito ou com o aleitamento em público. De acordo com a nutricionista, a mulher precisa acreditar na capacidade do próprio leite.

De acordo com as especialistas, o leite materno é o alimento mais completo que existe no mundo, pois ele atende todas as necessidades de nutrientes e sais minerais da criança como: ômega 3, vitamina K, água, carboidrato, gordura, todos os micro e macro nutrientes disponíveis em quantidade adequada. O leite materno também tem substâncias que ajudam a proteger e aumentar a imunidade, além de conter fatores que melhoram e regulam a flora intestinal.

Segundo a Organização Mundial da Saúde e pesquisas científicas, o leite humano preenche necessidade de crianças até seis meses de vida. Após esse período o indicado é que alimentos especiais sejam introduzidos (as famosas papinhas) o que não exclui o peito. Geralmente a criança pode mamar no peito da mãe até os dois anos de idade, diminuindo gradativamente a frequência e introduzindo mais alimentos. “É uma vacina. Se ela quiser amamentar dois anos ou mais, permitam, ela que decida”, pede Celestina.

Depois desse período o ideal é que a espécie humana não beba leite industrializado ou animal. Para a estudiosa, o dito que é necessário beber leite para ter cálcio é um mito. As frutas, verduras e legumes tem fontes de elementos essenciais para viver bem até a velhice. “Só que é difícil introduzir isso na nossa cultura”, alega, completando que isso acontece por preguiça e urgência. Celestina apela que todos se desvinculem da força de pressão da indústria para o leite artificial. Também pede para profissionais da saúde e familiares apoiarem a mãe que está amamentando, confiando na capacidade dela de amamentar, uma vez que foi capaz de gerar.

Para Karine, a sociedade ainda tem preconceitos com amamentação, inclusive o meio médico que indica o desmame a partir de 1 ano de idade ou a introdução de fórmula infantil. “Nossa licença maternidade de 4 meses é uma licença que não ajuda a mãe a amamentar exclusivamente”, reclama dizendo que isso é um pecado em relação ao aleitamento materno. O escândalo que causa uma mulher amamentar em público também é algo que precisa mudar, porque de acordo com nutricionista, só consegue amamentar quem tem exemplos sobre amamentação. “O mundo inteiro ganha com a amamentação, então todo mundo deveria de alguma maneira incentivar o aleitamento materno”, incentiva.

Seja uma doadora

Para doar o leite materno, a mãe pode ir diretamente ao banco de leite para atendimento ou agendar uma visita a domicilio. No segundo caso, o contato é feito por telefone ou pessoalmente e em seguida a mulher passa por uma avaliação ou entrevista para conferir se ela está realmente disponível para doação. O próximo passo é agendar a visita e no dia receber um técnico de saúde que leva material esterilizado para coleta e então marcar o retorno, até que ela avise não ter mais excesso de leite.

Manual de Como Lidar com Gente Bem Educada

 

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Colagem via Rebloggy

Dia desses uns rapazes passaram por mim e gritaram um cordial “Bom Dia”, animados, indo trabalhar. Gentilmente respondi e sorri. Em questão de segundos um mal informado me solta: “nossa, tá fácil assim é?”. E esse é o relato sobre o dia em que fiquei constrangida por ser bem educada.

Engraçado. Somos todos seres humanos vivendo em um mesmo lugar, mesma cidade, mesmo estado, mesmo país, mesmo continente, mesmo mundo, mesma galáxia, mesmo universo… E ainda assim sequer nos cumprimentamos. Alguns por medo, outros por má educação mesmo e outros por indiferença. Seja lá o que for, estamos desacostumados com a gentileza e boa educação.

Infelizmente a sociedade caótica em que vivemos relaciona bons atos com interesse de qualquer espécie. Em certos casos, fico constrangida de conhecer rapazes novos, porque como uma garota hétero, muitas vezes minha gentileza e boa educação é confundida com intenções amorosas. Como trato todos igual, logo posso parecer uma garota muito “dada”, como se diz. E é péssimo quando você elogia alguém e a pessoa retruca um “tá querendo o quê?”. E isso me indigna. Por isso vos escrevo o Ultimate Manual de Como Lidar com Gente Bem Educada!

Se a pessoa te cumprimentou, cumprimente de volta! Se ela sorriu, que tal ao menos acenar? Se você recebeu um elogio, não quer dizer que o bem educado quer seu emprego, seu dinheiro, sua mão de obra ou seu corpitcho. Se alguém quis te conhecer e saber mais sobre você,  essa pessoa quer… Apenas isso, te conhecer e saber mais sobre você. Por você ser um ser humano e não (necessariamente) um “bom partido”. Naturalmente com o tempo alguma coisa pode acontecer, quem sabe? Mas não, não a princípio, é só boa educação mesmo.

Se você se machuca e a pessoa oferece ajuda, se ela sempre te escuta e aparentemente gosta de passar tempo com você; ela entende que você, como ela, é um ser biopsicossocial que precisa de relações saudáveis. Relacionamento nem sempre quer dizer relacionamento amoroso, para constar. Ah, inclusive, se a pessoa é carinhosa ela não quer te “pegar”, ela só é carinhosa. É simples. Uma pessoa bem educada é bem educada com todo mundo, não só com você. Observe.

Queridos lobos vestidos de ovelha (pessoas que são bem educadas e gentis apenas para comer pelas beiradas, ou seja, por interesse), não suje o nome dos bem educados. Pessoas que estão desacostumadas com os bons modos, sinto muito pelos motivos que te fizeram criar essa barreira, mas é sério, ainda há esperança. Sorria você também. Se você é uma pessoa bem educada e sofre desse mal entendido, não desanime nem deixe de ser bacana. Seja um contaminador de gentileza, bons modos e empatia. Como já tem sido.

 

Anne com “E”

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Olá! Acomode-se no seu assento, pega uma xícara de chá que temos muita coisa pra falar aqui.

Quem me conhece sabe que não sou uma grande fã de Netflix and chill porque odeio ficar sentada parada por muito tempo (sem estar produzindo algo). Mas, um fenômeno sobrenatural aconteceu quando conheci Anne. Anne Shirley. A ruiva me fez virar a noite para terminar de ver os míseros oito episódios da primeira temporada. E nas próximas linhas explico o que ela tem de tão maneiro.

Para começar a série veio de um livro. Uns livros, na verdade. São quatro, totalizando mais de mil e seiscentas páginas. Inclusive meu aniversário é em setembro e até lá você consegue fazer suaves prestações do box para mim. O romance foi escrito por Lucy Maud Montgomery e publicado em 1908. Na época foi lançado como um livro para todas as idades, mas hoje em dia dizem que é infantil. Particularmente, eu acho que os assuntos tratados no enredo são muito importantes para se restringir ao púbico infantil. E na verdade são assuntos bem adultos.

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o livro ❤

O livro ganhou 21 adaptações, sendo a primeira delas um filme mudo em 1919 dirigido por William Desmond que é considerado um longa perdido. Ganhou um musical em 1956 e animação em 2005. A primeira série foi feita em 1952 pela BBC. A adaptação mais famosa é de 1985 com o drama canadense de mesmo título do livro. São 3h19m de duração pela direção de Kevin Sullivan. E agora a mais nova versão que saiu esse ano, “Annie with an E”, a série da CBC/Netflix ( que você pode ver o TRAILER AQUI)

Beleza, vamos ao que interessa: por que essa história é tão importante?

Temos aqui assuntos polêmicos, necessários e (infelizmente) atuais. Pois é, sociedade, a luta continua. Olha a listinha:

  1. Adoção ❤
  2. Trabalho/abuso infantil
  3. Preconceito/Bullying
  4. Feminismo/sexismo
  5. Crítica aos padrões da sociedade em relação a beleza, gênero e educação.
  6. Crítica a hipocrisia e intolerância da igreja
  7. Crítica a “forminha” de ser humano

Algumas dessas coisas ficam claras já nas primeiras cenas do primeiro episódio (que tem mais de 1h de duração). Eu não vou falar tudo e dar spoilers porque 1)provavelmente você não gosta de spoilers, 2) você provavelmente não quer ler muito porque tem preguiça e 3) eu quero muito que você assista a minha série favorita 🙂

Estamos falando da época que eletricidade era coisa de gente podre de rica. Muito muito tempo atrás. Não consigo nem imaginar isso. Nessa época tão tão distante encontramos Anne Shirley, uma garotinha excepcional. Daquelas que falam “pelos cotovelos”. Mas diferente do que você pode estar imaginando, ela não fica falando besteiras. Anne gosta de criar histórias, de usar a imaginação. Aliás, Anne adora ler e usar as palavras grandes dos livros no seu vocabulário. Ela ama as flores, as árvores, a natureza em sua essência! E ela é simplesmente adorável. Anne tem um poço de criatividade vindo de um rio de imaginação, o que é ótimo. Mas na maioria das vezes ela usa isso para fugir da sua triste realidade.

Quando Matthew Cuthbert chega para buscar o garoto que adotou de um lar, não encontra ninguém na estação de trem senão uma garotinha ruiva com cabelos devidamente trançados. Calmo que só, o senhor não consegue dizer nada para a menina (até porque ela não para de falar). Anne está felicíssima de ter um lar, depois de ter trabalhado por anos como doméstica sendo terrivelmente maltratada. Durante todo o percurso ela fala sobre a beleza do lugar, sobre os livros que gosta de ler… E durante o percurso todo ela fica se beliscando para ter certeza de que não é um sonho.

Mas chegando na casa dos Cuthbert, a irmã de Matthew, Marilla, diz que Anne precisa voltar para o orfanato porque eles pediram um menino e não uma menina. Queriam alguém que pudesse ajudar na fazenda, coisa que uma garota – obviamente – não podia fazer. Anne fica arrasada, em choque, se sentindo mais rejeitada do que nunca e chora muito em pensar que terá que ir embora de Green Gables e daquela casa adorável.

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Ok, minha crítica começa aqui. Quando estamos falando de adoção o assunto é muito sério. Anne já tinha vivido muita coisa para uma criança da idade dela, sofrido demais, e quando finalmente encontra um lar, vem aquele balde de água fria transbordando rejeição. Por isso o processo burocrático é tão chato e tão importante. Especialmente porque, durante a série toda, quando tem alguma situação que a deixa triste ou com raiva, ela simplesmente chora e corre. O que mostra que ela não tem um grande leque de solução de problemas, que quer dizer que ela não tem inteligência emocional ou maturidade psicológica. Adivinha por que? Porque isso se constrói em casa e Anne nunca teve uma casa.

Em um surto de querer ser aceita, ela diz que pode fazer as coisas dentro da casa e questiona o motivo de as meninas serem mais limitadas do que os meninos. Isso é um assunto que a série toca muito  em todos os episódios. Então além de um alerta para não só adoção, mas educação dos filhos, também entramos em contato com a importância do feminismo. Mas por enquanto vou falar somente do primeiro episódio para não dar spoilers. Acontece que eles tem uma vizinha muito chata, que nem me lembro o nome, mas a mulher não gosta da ideia de adoção e muito menos de órfão – não diferente de todas as outras pessoas da série com exceção é claro dos Cuthbert. E quando ela vê Anne já vai reclamando de que se a adotaram não foi pela aparência porque ela é muito magra, muito sardenta e tem um cabelo vermelho horrível. Anne dá um surto e fala poucas e boas para a mulher antes de sair correndo e chorando.

Isso não contribuiu de forma alguma para que a dona Marilla insistisse em ficar com ela. Inclusive Marilla levou Anne até uma mulher lá querendo devolver (meu Deus, que coisa mais absurda, como se fosse mercadoria) ou trocar Anne por um garoto. Daí a mulher disse que não tinha meninos, mas que Anne podia ficar como doméstica de um lar ali perto. Só que Marilla não gostou da casa da dita cuja cheia de filhos, brava que só, e teve um pouco de piedade deixando Anne voltar e dando a ela um prazo de cinco dias para se adaptar com os Cuthbert. E, felizmente, Matthew ajudou Anne a esfriar a cabeça e pedir desculpas para a tal da vizinha sem educação. E depois…

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Nem acabei de falar do primeiro episódio maaaaas… Eu te obrigo neste momento a abrir a sua conta do Netflix ou pedir pro amiguinho emprestar a dele e assista. A fotografia é incrível, a trilha sonora sensacional e o enredo excepcionalmente fabuloso demais da conta. Quem sabe em breve eu volto para falar mais sobre cada um desses pontos…? Quero ver de novo. Beijos, fui.

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não falei dele mas você QUER conhecer ele também… Mwahahha

 

 

Atenção rapazes: chorar tá liberado

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foto de Maud Fernhout

Quando entra em contato com o mundo pela primeira vez, o recém-nascido chora. Do contrário não poderia viver se o pulmão não abrisse expulsando o líquido de dentro dele trocando por oxigênio. No primeiro minuto de vida aprendeu espontaneamente que chorar faz parte de viver. Quando ralou o joelho pela primeira vez ou quebrou um osso não conteve as lágrimas nem o grito alto para que alguém o ajudasse, ele não seria capaz de estancar a dor e o sangue sozinho. Quando se sentiu rejeitado, humilhado, quando soube daquela história, quando sentiu a sua própria história… Eles choraram também. Mesmo assim, eles continuam escutando repetidamente que “homem não chora” e que devem imediatamente “engolir o choro”.

Eu choro, tu choras, nós choramos

Fisiologicamente falando, as lágrimas são gotinhas produzidas pelas glândulas lacrimais. Elas são divididas em três categorias: as lubrificantes, que permitem os olhos não secarem e, assim, ser possível enxergar; as reflexas que aparecem quando algo cai no olho ou cebolas são cortadas; e finalmente as emocionais. Existem benefícios nelas, a saber a umidade, nutrição e limpeza dos olhos. Mas, além disso, muitas pessoas afirmam que depois de chorar se sentem melhor. A mestra em desenvolvimento humano, Luciene Bandeira*, revela porque isso acontece: “depois de chorar normalmente nossa frequência cardíaca diminui e entramos em estado mais calmo, como se aliviasse”. Mesmo assim, opiniões de pesquisas sobre o humor melhorar após o choro divergem.

O psicólogo Flávio Mesquita ressalva a importância de observar a situação do choro, se há valor objetivo que o sustente com legitimidade. “Uma expressão exacerbada de padrão de choro pode indicar uma fragilidade emocional como o estabelecimento de um quadro depressivo”, explica Mesquita. Salvo casos específicos, chorar faz parte da natureza humana e por si só não pode ser classificado como uma fraqueza. “Ao contrário”, continua Flávio, “isso pode ser até uma expressão de força”, uma vez que a pessoa consegue enfrentar ou ter uma visão clara da perspectiva do contexto expandido do qual ela está inserida. O importante mesmo, como sugerem os especialistas, é conhecer suas emoções, saber nomeá-las e controla-las, ao invés de reprimi-las.

Em terapia quando o indivíduo chora, é considerado o contato mais profundo consigo próprio. Isso acontece porque quando a pessoa entra se encontra com algum conteúdo, memória ou reminiscência que é carregada de uma carga emocional importante, ela é acompanhada da expressão do choro.  “Quando você se priva disso, você está se furtando o direito de exercer alguma coisa para qual somos programados pela natureza”, afirma Flávio. O filósofo Friedrich Nietzsche já refletia: “transforma-te no que tu és”. Para o psicólogo existe um poder enorme de emancipação, desenvolvimento e amadurecimento pessoal quando se permite entrar em contato com a sua essência, aquilo que é mais profundo.

De acordo com a terapeuta Dilene Ebinger é possível expressar emoções – sejam elas positivas ou negativas – através da fala, atitudes e também pelo choro. “Expressões que não são expressas se alojam na carne, elas se transformam em dores”, explica. Para Dilene, o choro não é sinônimo de fraqueza, mas de muita força. “Somente aquele que é centrado, que sabe o que quer é capaz de expressar suas emoções com tranquilidade e com segurança”, declara. Isso acontece porque esse indivíduo sabe que pode expressar suas emoções e continuará sendo aceita pelas pessoas ao redor.

No llores! Cry baby cry

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via Pinterest

Gustavo Santos foi ensinado desde a infância que chorar é coisa de menina, porque é demonstração de fraqueza. Quando era moleque se caísse e se machucasse, não chorava de jeito nenhum, tinha que ser forte. “Era angustiante”, lembra. Gustavo acreditou nisso por muitos anos, mas com o tempo foi criando maturidade e entendeu que não há problema nenhum em demonstrar seus sentimentos. “Faz parte da vida. Lágrima é lágrima, sentimento é sentimento”, explica ao falar que não há diferença no pranto feminino e masculino. Até para chorar de rir. Com isso, Gustavo aprendeu que tanto a alegria quanto a tristeza passam, e ambos os momentos devem ser vividos sem censura. “Desabafei aí contigo”, ri.

Chorar ou não chorar: eis a questão. A percepção do choro como algo aceitável socialmente ou não, é cultural e varia ao longo da história. Se hoje no Brasil é estranho o homem chorar enquanto a mulher tem livre acesso as lágrimas, na Grécia Antiga era o contrário. Luciene Bandeira explica que a expressão dos sentimentos antigamente era algo masculino. Já no período medieval tanto gargalhar quando chorar em público não gerava qualquer constrangimento. No começo da Época Moderna por sua vez, sobretudo no ocidente, é notório um processo civilizador de disciplinamento desses hábitos.

“Com o refinamento, o chamado pudor, os atos que eram rotineiros passaram a ser mais discretos no âmbito privado”, afirma a mestre. As lágrimas, portanto, ficaram restritas a intimidade de cada um. As famosas carpideiras da Era Vitoriana eram contratadas para chorar nos velórios porque era mal visto chorar em público em enterros, mesmo que este fosse do seu próprio filho. No século XX a situação se inverteu pela diminuição das fronteiras que separam a esfera pública e privada. Embora a cultura latina considere inconveniente, nos dias de hoje é comum em países islâmicos que homens chorem.

É na primeira infância do menino que os padrões de comportamento “macho” são disseminados. Na busca pela formação de homens emocionalmente fortes, alguns gestores perceberam que ao proibir o choro estão criando homens violentos ou extremamente tímidos, de acordo com a especialista. Meninos que podem usar livremente sua capacidade de chorar tendem a ser mais capazes de compreender e validar a dor do outro.

Mulheres choram mais?

É fato que as mulheres choram mais e de forma mais intensa do que os homens. A psicóloga clínica Brisa Nepomuceno explica que isso acontece em resposta ao hormônio prolactina que é envolvido com a amamentação, embora todas as mulheres tenham independentemente de amamentar ou não. Por outro lado, altos níveis de testosterona podem inibir as lágrimas. Estudos apontam que mulheres com mais testosterona e menos prolactina choram menos na fase adulta, enquanto até a adolescência meninos e meninas chorem na mesma proporção. Luciene comenta que isso pode ter cunho cultural.

Brisa ressalta que nas crianças, assim como nos idosos, o controle sobre as expressões e emoções é menos eficiente. “O córtex pré-frontal é hipofuncional, o que torna mais difícil segurar o choro e as emoções”, explica. Em linhas gerais o gênero feminino tende a ser mais emotivo do que o masculino, por sua vez tendendo a racionalidade. Há também forte influência do padrão cultural da sociedade em que esse homem ou essa mulher estão inseridos. “A menina é franquiado o direito do choro”, comenta Flávio Mesquita. Em suma se uma pessoa tende a ser emotiva ou não depende mais da bagagem da mesma.

“Engole esse choro ou vai apanhar”

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foto de Maud Fernhout

Robert Machado era a típica criança chorona. Por isso escutou repetidas vezes “para de chorar, homem não chora”. E ele parou. Trocou suas lágrimas por estresse, o que ele não imaginava que afetaria sua vida futura. A personalidade de Robert mudou, agora ele era uma pessoa mais fria e calculista. Sentia fortes dores de cabeça quando queria chorar, e o oftalmologista disse que seus olhos estavam muito secos. A personalidade dele que estava bloqueada pelas lágrimas trancadas, foi libertada quando, de novo, deixou as lágrimas livres. “Isso não é uma coisa feminina, é uma coisa humana”, relata.

A psicóloga adverte que segurar as lágrimas frequentemente desenvolve um certo grau de instabilidade psicológica. Guardar sentimentos negativos e ignorar emoções pode dar início a um quadro depressivo. “Segurar o choro traz desconforto físico e emocional”, afirma. Quando a pessoa segura o choro, Brisa observa que ela contraí os músculos do peito, ombros e garganta, impedindo soluços. Os lábios enrijecem e até mesmo as sobrancelhas são posicionadas de forma a evitar que as lágrimas surjam. As contrações também acontecem nos vasos sanguíneos, estômago e intestinos. “Alguns indivíduos relatam que após segurarem o choro tiveram crises de enxaqueca, vômitos e dores estomacais”, declara a psicóloga.

Tirar a oportunidade de choro contribui negativamente para a cristalização de emoções que ficam reprimidas na psique e podem pedir contas ao longo da existência. Flávio explica que “engolir” o choro em uma situação de luto, por exemplo, pode protelar o mesmo. Não somente isso, mas da perspectiva psicossomática a repressão de emoção pode ter repercussão fisiológicas como câncer, doenças autoimunes, asma…

Para o psicólogo, a frase “homem não chora” tem uma conotação de desejo ou pressão ideológica contaminada por uma cultura que tende a ser machista. Ela aponta para o masculino falando o que ele não deve fazer mais do que uma constatação do que ele não faz. Flávio explica que isso acarreta em um potencial danoso muito maior, pois pode gerar sentimento de inadequação no homem que percebe a capacidade de chorar. “Como que eu choro? Então não sou homem? Sim, o homem chora”, declara.

“Não chorar nunca vai exigir um elevado controle do comportamento e isso é desgastante”, afirma Luciene. Esse desgaste pode ser comparado a um estresse agudo. Pode não parecer muita coisa no mundo estressante atual, mas a exposição a altos níveis de estresse por tempo prolongado causa mudanças a longo prazo nos níveis de cortisol – hormônio regulador do estresse. Se ainda não ficou claro: isso pode causar alergias, doenças autoimunes, entre outros. Parece assustador? Luciene alerta que reprimir sentimentos pode desencadear doenças psicossomáticas, a exemplo de depressão.

Se por um lado segurar o choro pode causar problemas, o choro exacerbado também é sinal de alerta. Se o comportamento que o individuo expressa diante de situações problemáticas se resume a chorar, isso é uma demonstração de limitação no repertório comportamental da mesma. Ou seja, dificuldade para superar as adversidades. “Depois do choro é importante que venha ação, reflexão, pedido de ajuda ou auxilio, porque aí ele se torna parte de uma expressão comportamental mais elaborada”, esclarece Luciene.

Brisa compara o imperativo “engole esse choro” ou o dito popular de que “homem não chora” com alguém que está com muita sede e lhe é negado um copo de água. Ela afirma que quando a pessoa suporta suas dores sozinha ela adoece com mais frequência e de maneira mais grave do que aquelas que expressam suas emoções e dores através das lágrimas.

O dito popular de que “homem não chora” é, para a terapeuta Dilene, uma infelicidade. Ela acredita essa frase é uma repressão machista de uma sociedade da qual o homem deve ser muito forte e duro, impedido de demonstrar emoções. Esse pensamento pode enrijecer, insensibilizar e trazer problemas para uma vida toda. Quando se chora, uma emoção está sendo transmitida. “Sua emoção é importante pra mim, tem significado e eu aceito e recebo”, fala Ebinger sobre a educação emocional ao lidar com o choro infantil. Dessa forma, o sujeito se sente aceito, amado e importante.

O choro delEs

Manoel Vicente já segurou o choro para não demonstrar fraqueza. Se considera emotivo, especialmente com suas experiências do passado. “Nós homens temos muita responsabilidade pra sociedade. O ato de chorar também é um pedido de socorro a quem confiamos”, declara.

Thiago Mota aprendeu em casa que homem engole o choro e vai resolver o problema. As pessoas do seu convívio acham que ele é uma pessoa fria, mas ele admite deixar rolar aquele suor dos olhos com histórias de superação.

Jefferson Braun chorou quando a namorada disse que o amava. Ah, em filmes também. O jornalista crê que acima de qualquer estereotipo, todos são seres humanos. “Se o homem chora ou não isso não vai fazer a virilidade dele ficar em cheque”, afirma. Ele cita a especialista em desenvolvimento humano Heloisa Capelas ao declarar que o machismo e o patriarcado afetam os homens pelos paradigmas e estereótipos impostos pela sociedade, o que acaba dificultando lidar com as próprias fraquezas.

André Apolinário geralmente chora de estresse. Estresse causado justamente por guardar muito seus sentimentos. Inclusive quando a entrevista foi feita, fazia dois dias que ele tinha chorado pela ultima vez. “Só chorar não resolve o problema, tem que decidir se levantar e tocar a vida”, declara. André pede para que os meninos chorem. Para ele, chorar não é fraqueza, mas sim força pela demonstração de humanidade.

Victor Rocha de pronto disse: “eu choro pra caralho”. O triatleta discorda que lágrima tenha algo a ver com fraqueza. Atualmente está fazendo intercâmbio e não esconde ter chorado muito quando foi morar sozinho. “Mas hoje estou bem”, conta. Para ele, homem pode chorar, e ainda aconselha: se possível abraçado com alguém que você ame.

“Homem deve chorar, embora eu já não lembre o que seja isto!”, alega o fotógrafo Adeilson Santos. Ele foi criado em uma família clássica nordestina do “se chorar apanha”. Quando seu primeiro filho nasceu, ele tinha se preparado para abrir o berreiro, no entanto relata que na hora conteve inconscientemente a emoção. Adeilson afirma que a dor no peito dói muito além de uma lágrima que escorre no rosto, e nem sempre o choro é sua forma de expressão. O não chorar não faz dele mais homem e nem menos sensível.

William Bontorin acredita que homem evita chorar por causa da imagem. “Só que eu já saí dessa vida, choro mesmo”, brinca.

Daniel Perla tem uma senhora barba de impor respeito quando se vê. Era censurado para não chorar caso sentisse dor ou medo. Com a sua própria experiência aprendeu que prender o choro pode ser prejudicial, por isso diz: “chorem quando der vontade. É uma forma natural de expressão”.

Quando era “pirralhão”, Keny Ebinger (sim, filho de Dilene) sempre escutava dos colegas da escola que homem não hora. No entanto quando chegava em casa e conversava com sua mãe ela lhe chamava a atenção para o perigo dessa frase. “Os homens também têm glândulas lacrimais, então tem que chorar mesmo”, ri Ebinger, que admite gostar muito de chorar por alegria.

 

 

“Os brazuca”

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ilustração via sollas.com.br

Para ouvir essa crônica clique aqui 🙂

O povo brasileiro é um povo engraçado. Compra camiseta com frase em inglês, bonita que só, mal sabendo que exibe algo do tipo “beijo traseiro de cachorro”.  Aliás, brasileiro adora um gringo. Faz a festa quando chega um estrangeiro e quer mostrar todo o nosso verde e amarelo. Aí vem os tios das Europa como se diz, e já mete logo goela abaixo do turista um feijão com farofa, que não pode faltar. Ah, sem se esquecer da coxinha, brigadeiro, açaí…

Parece até irmão mais velho do país. Isso porque acha que pode bater e chamar de feio. Mas ai! Ai daquele que falar que o brasil é ruim. Fica sentido, demonstra que ama mesmo sem verbalizar o orgulho ferido. Ainda assim sonha em sair do país, ir pra fora! Quem não? Aí encontra o gringo e fala lá uma língua que só ele entende. Mas fala. Quer falar, precisa falar. Brasileiro gosta de conhecer, é curioso, corajoso. Bota a cara a tapa.

Acha que sabe falar espanhol porque diz ser fácil. Inclusive fala dos hermanos como se fossem primos distantes, enquanto dividem a mesma América. Mas não, brasileiro não acha que é latino. Brasileiro é brasileiro. E seria diferente? Temos a amazônia, temos Pelé, temos Tom Jobim e a Garota de Ipanema. Só não fala muito de política e economia porque a casa tá uma zona. Mas aí a gente solta um “pode entrar, mas não repara a bagunça” e tira sarro da própria desventura.

É meu caro, tem que rir pra não chorar. Dizem por aí que brasileiro não desiste nunca. É aquele trouxa apaixonado que peleja. Tem uma achada união no braço aberto tal qual o Cristo carioca, pronto pra dar aquele abraço. Aquela alegria desmascarada do carnaval, os dribles do estádio e o joelho ralado de tanto pedir piedade no alto do morro. Pois é, enquanto brasileiro é filho de uma pátria amada, o brasil é uma mãe sofrida e gentil.

Bomba, para malhar isso aqui é bomba?!

(Se você não pegou a referência do título relembre esse fenômeno musical clicando aqui )

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Ilustração de Jonas Bergstrand

Victor entrou na academia com 14 anos de idade pelo incentivo de sua mãe por motivos primordialmente de saúde. O médico o diagnosticou como ectomorfo, como se chama cientificamente o sujeito “mirrado”. No início ele não gostava de ir a academia e por isso era desleixado em suas obrigações com a mesma. Mas percebeu que isso não surtiria nenhum efeito e decidiu mudar. Hoje Victor Lelis é youtuber fitness e tem sua própria loja de suplementos.

Ele lembra em meio a curtos risos da primeira vez que tomou um proteico, depois de um ano na academia. A novidade de suplemento deixou sua mãe desconcertada, pois na época não se tinha acesso a informação como atualmente. “As pessoas sempre confundiam suplemento com bomba, que na verdade não tem nada a ver”, diz. Mesmo tendo consciência de que o suplemento não era um anabolizante, ele admite ter errado em não consultar um profissional de nutrição antes de começar a usar. A falta de orientação física resultou em uma lesão no ombro que rendeu duas semanas sem exercícios. Além disso, Victor acabou engordando muito por acreditar que o alto consumo de calorias iria ajuda-lo a desenvolver melhor os músculos.

O professor de boxe e especialista em treinamento desportivo, Carlos Bruce, adverte que no meio do fitness nenhuma droga é tão importante quanto os pilares do treinamento. Os três pontos essenciais são: treino com intensidade, descanso e alimentação adequada. Tanto Bruce quanto Vitor realçam que coisas conquistadas com facilidade cobram dívidas das quais serão pagas com dificuldade no futuro. Mais do que isso, o treinador desaconselha a automedicação.

“Desconfie das facilidades e tenha muita paciência”, conclui.

De acordo com a classificação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), suplementos são alimentos com fins especiais para atletas, ou seja, pessoas que fazem esforço muscular intenso. A educadora em alimentação e saúde Isabelle Zanoni afirma que o uso de suplementos ou anabolizantes pode melhorar o desempenho físico de forma saudável uma vez que o uso seja controlado e acompanhado por especialistas.  Em poucas palavras, anabolizante é uma substância que promove o anabolismo, ou seja, crescimento. Diferente de muitos alimentos que se encaixam nessa categoria, ela explica que os anabolizantes são hormônios esteroides geralmente derivados da testosterona. Assim, eles promovem maior perda de gordura e ganho de massa.

A procura pelas “bombas” acontece pela promessa de ganho de força muscular e aumento da mesma. Além disso, o anabolizante tem uso benéfico para tratamento de algumas doenças como pacientes de AIDs e anorexia justamente por ajuda-los a voltar ao peso normal. Eles existem na forma de comprimidos, cápsulas e injeções. De acordo com Carlos Bruce, a injeção mal aplicada causa implicações negativas perpétuas. Quando uma pessoa que não precisa de mais hormônio toma esse tipo de medicação, pode haver muitos efeitos colaterais, a saber, desde infecções na pele até evolução de alguns tipos de câncer e diminuição da produção hormonal natural entre diversos problemas. “Cada organismo reage de formas diferentes”, relata Bruce.

Quando usou anabolizantes, Victor teve acompanhamento médico, mas admite não ter gostado do resultado em comparação ao que esperava. Pelo contrário, teve efeitos colaterais como tonturas, dor de cabeça e espinhas. “Pra mim não valeu a pena e eu não indico de forma alguma ninguém utilizar isso.”, declara. Mesmo que não recomende a utilização para pessoas que querem ostentar o corpão na praia ou no carnaval, ele entende que para situações como competições de fisiculturismo é impossível não utilizar as famosas bombas.

Isabelle não acredita que essas substâncias sejam viciantes, mas explica o que acontece na prática. “A pessoa sempre vai querer buscar algo a mais e o uso acaba sendo recorrente, muitas vezes em doses mais altas”, diz. Ela gostaria que a população de forma geral se preocupasse mais com saúde e bem estar, respeitando o próprio corpo e seus limites. “Ter um estilo de vida saudável é para sempre, e dieta tem que ser algo incorporado”, completa.

Victor conta que já passou por preconceito por levar isso a sério, especialmente pelo dito popular de que pessoas como ele têm muito músculo e pouco cérebro. Ele é prova física contra esse pensamento, pois estuda Design Gráfico e fala inglês fluentemente. “Eu pratico musculação na verdade para me sentir bem comigo mesmo, levo fitness como um estilo de vida saudável”, conta o youtuber. O equilíbrio entre os pilares que Carlos Bruce comenta na verdade promovem o intelecto de qualquer pessoa, uma vez que corpo e mente estão estritamente ligados. Por isso o acompanhamento profissional é tão importante.

O maromba acredita ser possível atingir ótimos resultados sem a utilização da suplementação. “Na verdade o alimento sólido é muito melhor e muito mais rico em nutrientes no modo geral do que a suplementação”, afirma Lelis. Ele recomenda o uso de suplemento para praticidade, usando o exemplo de alguém que tem pouco tempo para se alimentar bem. Existem casos específicos como a creatina (substância auxiliadora no ganho de força) que suplementa um quilo de carne vermelha.

Lelis cresceu muito – em todos os sentidos da sentença – desde que começou a praticar musculação até hoje. Antes, pensava que era só ir à academia e construir o corpo que quisesse.

“A musculação é algo de 24 horas por dia, não só daquelas duas horas que você fica dentro da academia”, esclarece Victor.

Assim como os profissionais da área, ele enfatiza sobre a importância da boa alimentação e descanso apropriados para resultados mais efetivos e satisfatórios.

O Caleidoscópio de cada um

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Colagem de Kelly O’Connor via bloglovin’

Gisela Kassoy  é especialista em Criatividade e Inovação. Ela atua com consultoria, seminários, palestras e facilitação de grupos de ideias. Já realizou trabalhos em quase todo o país e também nos Estados Unidos, Europa e América Latina.

Lia Costa: Todos podem ser criativos e inovadores?

Gisela Kassoy: Todo o mundo é criativo. Entretanto há diferentes tipos de criatividade. Se usarmos o conceito do pesquisador inglês Michael Kirton, podemos dividir a criatividade em dois tipos: a adaptadora (das pequenas coisas, dentro da conformidade) e a inovadora (das grandes ideias que quebram paradigmas e trazem mudanças efetivas). Assim, há a pessoas que usam a criatividade para se adaptar ao mundo e tendem a melhorar e adaptar inovações e solucionar problemas e há as que mudam o mundo, que tendem a gerar inovações de impacto.

LC: Todos os criativos são inovadores?

GK: Se mantivermos a definição  que mencionei, nem todos os criativos são inovadores. Mas, na verdade, para implementar uma inovação normalmente é preciso “polir” a ideia inicial, vender o peixe , adaptar a inovação ao mercado etc. Assim sendo, as inovações precisam tanto de inovadores como de adaptadores.
LC: O que é importante considerar para ser uma pessoa criativa?

GK: Costumo dizer que criar é como dançar: algumas pessoas nascem com o dom, outras apenas capazes de se mexer razoavelmente. Entretanto, aqueles que aprendem, desenvolvem e praticam a dança acabam dançando até melhor do que pessoas que nasceram com o dom e foram podadas desde a infância. Outro fator a ser considerado é o ambiente: assim como e mais fácil dançar na balada do que no elevador, e mais fácil criar num local onde há menos censura, onde o pensar diferente vai ser valorizado, onde o desejo de inovar é verdadeiro. Portanto, para reforçar a criatividade, é importante conhecer o processo criativo e também estar cercado de pessoas abertas e estimulantes.

 

LC: A alimentação e prática de exercícios físicos tem alguma relação com o desenvolvimento da mente criativa?

GK: Evidentemente, é mais difícil criar quando a pessoa está com fome, dor de cabeça ou com o estômago pesado, mas considero que o poder de um alimento para tornar as pessoas mais criativas é limitado. Os exercícios físicos contribuem de duas formas: na geração de energia e bem estar, e também para a chamada incubação criativa: muitas pessoas têm boas ideias correndo, nadando ou até na academia.  Vale dizer que a incubação pode funcionar também quando a pessoa está dormindo ou fazendo trabalhos manuais

LC:  O que seria uma liderança criativa e por que isso é importante?

GK:  O líder tem um papel importantíssimo na criatividade de suas equipes.  Criei uma forma fácil de memorizar os princípios da liderança criativa, que chamei de Princípios dos 5Ds. São eles: DESCONTRAÇÃO, que é deixar a equipe á vontade para criar e errar, DIRECIONAMENTO , ou seja, foco: saber o quê e para quê se quer criar, DESAFIO, para garantir que a equipe evolua sempre, DIVERSIDADE que é o reconhecimento e valorização das diferenças entre cada membro da equipe e DESAPEGO, a capacidade de abandonar o ego, as certezas, a noção de que não há mais alternativas

LC:  Por que as pessoas são mais criativas quando crianças?

GK: Podemos comparar a criatividade a um caleidoscópio, no qual as pedrinhas coloridas equivalem ao nosso conhecimento e a argola que a gente gira equivale à nossa imaginação. Nesta analogia, criatividade é a capacidade de recombinar o conhecimento para formar novas imagens. As crianças são mais livres para usar a imaginação, pois sofrem menos censura, por outro lado os adultos possuem mais conhecimento. O melhor dos mundos acontece quando conseguimos recombinar nosso conhecimento com uma postura de criança, ou seja, ludicamente e sem censura, pelo menos num primeiro momento.

LC:  Pessoas criativas são curiosas?

GK: A curiosidade é um componente importantíssimo da criatividade. É com ela que atraímos mais pedrinhas para nossos caleidoscópios.
LC:  O hábito mina a criatividade e a inovação?

GK: Sim. Os hábitos dificultam a percepção de oportunidades,  congelam o pensamento. Quanto mais praticamos ações rotineiras e/ou repetimos as mesmas coisas, mais difícil fica para o cérebro pensar de forma diferente. Um ótimo exercício para estimular a criatividade é justamente mudar os hábitos, visitar lugares diferentes, fazer algo totalmente inédito ou conversar com pessoas que agem e pensam de forma bem diferente da nossa
LC:  Qual a sua opinião sobre a criatividade das crianças da nova geração tecnológica?

GK:  Estou acompanhando alguns estudos sobre o funcionamento da mente humana sem o uso da escrita a mão, com a redução dos relacionamentos presenciais e com a ascensão dos games, mas os estudos são meio controversos, não vi conclusões que me convencessem.  A tendência dos imigrantes digitais (pessoas que nasceram antes da internet) é perceber mais as perdas do que os ganhos, o que não acho justo. Pessoalmente me assusta um pouco é o fato de que as pessoas, por poderem optar com quem conversar, ficam muito restritas aos seus mundinhos, perdem a riqueza das trocas, dos confrontos, da visão de quem pensa diferente.

LC:  Levando em consideração a sua reposta, como serão as próximas gerações?

GK: Nem melhores nem piores, mas muitos diferentes. Serão, sobretudo mais ágeis, o que me princípio é uma vantagem, mas há o risco da superficialidade e da visão polarizada.

LC:  É possível dar dicas para estimular a criatividade? Existe uma receita?

GK: Receita eu não diria, mas há dicas, com certeza. Já mencionei sair da rotina. Outro procedimento super simples é se forçar a ter sempre mais de uma alternativa, nunca se contentar com a primeira. Há também técnicas específicas para estimular novas ideias, a mais conhecida é o Brainstorming – que consiste em forçar a mente a gerar o maior número possível de ideias para depois selecioná-las. Nosso cérebro está programado para memorizar e não para pensar diferente. Ideias podem surgir sempre, mas utilizar as técnicas garante que elas surgirão quando precisarmos delas.

LC:  A criatividade é capaz de tornar tudo possível?

GK: Depende do que se chama de possível. Um ser humano ainda não é capaz de sair voando sozinho, mas a criatividade aliada à tecnologia nos tornou-nos capazes de pegarmos aviões.

Pai também pode (e deve) ser pai

Phillipe faz cabelo e unhas, Lizandro foi em workshop de tricô e Aggeo se aprofunda cada vez mais no universo feminino. Esses três homens são heteros, e podem não parecer convencionais, mas eles são apenas pais. Pais presentes. E solteiros.

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Lizandro Crus, carioca, estava em uma mistura de exuberante felicidade e pavor. Sempre quis ser pai, mas agora que o sonho estava a se concretizar pensava nos obstáculos existentes mesmo antes da criança nascer. Quando um dos seus amigos viu a preocupação dele o chamou para “encher a cara” e lhe dar uns “tapas”.

“Deixa de ser babaca, só por você estar preocupado assim já é melhor que muitos pais!”, disse o amigo.

E depois dessa conversa ele encheu o pulmão decidido a contornar as dificuldades.

O papai de primeira viagem não tinha plano de saúde, e como professor de geografia queria arranjar uma escola melhor para trabalhar, dessa forma seu filho poderia estudar lá gratuitamente. Até para arrumar o enxoval estava apertado. Para agregar, nessa época Lizandro e a esposa estavam se distanciando, mal tinham certeza se continuariam casados. Essa era uma de suas maiores preocupações, pois ele é órfão de mãe desde os 9 anos de idade e foi criado pelo pai, nordestino clássico do “se vira sozinho”. Ele sabe que a carência paterna ou materna não é agradável, por isso hoje tem a guarda do pequeno Thomaz compartilhada.

A história de Lizandro é muito parecida com a de outros pais solteiros e solos (estes têm os cuidados da criança full time). O sonho se realizando na barrigona na mulher, o assombro de olhar para algo tão frágil e saber que a responsabilidade é toda sua, a dor da separação e as dificuldades que todos – quer seja homem ou mulher, na maternidade e na paternidade – têm.

A história se repetia na família da pequena Emma de um ano quando seus pais se separaram. Eles não eram mais amigos e a casa deixou de ser lar. Depois de conversarem decidiram que seria melhor que ela ficasse com o pai. Ainda que tenha sido um consenso, Phillipe Morgese estava com medo. “Eu não me considerava pronto para ser pai”, conta. Ele passou meses lendo sobre o assunto e conversando com amigos. Afinal, ele sabia que ela merecia o melhor dele.

Phillipe aprendeu a fazer penteados nos longos cabelos de Emma. Assim surgiu a ideia de unir o útil ao agradável: Morgese deu início a Daddy Daughter Hair Factory (Fábrica de cabelo da filha do papai, em tradução livre). Da mesma forma que essas informações o ajudaram, ele ajudaria outros pais a tornar o obstáculo em oportunidade de se aproximar das filhas. Primeiramente ele tinha em mente compartilhar a experiência com os amigos que eram pais, mas logo viu a importância do projeto e espalhou para quem quisesse saber.

A iniciativa veio da vontade de que a visão da sociedade sobre a figura paterna pudesse mudar. Pais também são amorosos, envolvidos e entendem o quão importante sua posição é na família. “Nós vamos encorajar uns aos outros e inspirar a próxima geração de pais a serem mais envolvidos. As crianças precisam de nós”, explica. Quando Emma escuta a palavra “pai”, ela interpreta como alguém que mostra o caminho, se preocupa com ela e sempre está disposto a ajudar. “Pais precisam ser fortes e ter dinheiro para sorvete também”, completa.

A relação dos dois é bastante sólida. Eles conversam sobre tudo, até mesmo namorados e menstruação, e Emma não vivenciou nenhum dos dois ainda. Morgese acredita que o amadurecimento dela como mulher vai ser desafiador para ele, uma vez que ele não vai entender tudo o que ela passa.

“Mas eu vou estar lá para confortar e escutar ela, então eu acho que tudo vai ficar bem”, declara.

Phillip conta que o mais gostoso da paternidade é ajudar Emma a criar confiança. “Eu amo ver a animação dela quando ela percebe que tudo é possível”, diz orgulhoso.

Assim como Lizandro e Phillip, Aggeo Simões teve medo. Sua filha Ava tinha um ano e meio quando ele se divorciou da esposa. Optaram pela guarda compartilhada. Sempre quisera ter a experiência de ser pai desde os 15 anos, embora admita que isso não é comum no meio masculino. “Tive pesadelos horrorosos. Acho que meu inconsciente simulou situações que, quando acordado, me fizeram ficar alerta”, declara.

Aggeo passou por fases turbulentas e decidiu compartilhar sua vivência com outros. Assim criou o Manual do Pai Solteiro, primeiramente um blog que agora tem a versão física em livro. Ele conta que já sentiu preconceito das pessoas em relação a sua identificação como “pai solteiro”. Alguns amigos diziam que isso era tática de conquistar mulheres entre outras “besteiras”. Embora Simões siga o exemplo atencioso e amoroso do seu pai, admite que na geração dele o homem não costumava tomar conta de criança. “Era tido como coisa de mulher”, revela.

Diferentemente, o processo da guarda para Lizandro foi uma loucura. Ele não aceitava ver o filho apenas de 15 em 15 dias. “Entrei em paranoia”, relembra. Pela justiça, o dito popular é que a guarda sempre fica com a mãe. “A defensoria se recusava a pegar meu caso, eles diziam que era caso perdido”, conta. Sem apoio jurídico resolveu estudar a legislação. Descobriu que a história da guarda automática para a mãe não era lei. Ele não suportava a dor de ficar longe de alguém que era parte de si e foi lutar no Tribunal.

Não saía da cama, sequer queria tomar banho e mal tinha forças para trabalhar. Só se sentia humano novamente quando o filho estava com ele, era pura cor e energia. Assim que a porta fechava e ele ficava sozinho de novo, o sorriso já era. A casa virava de cabeça para baixo e a cama o convidava a ficar lá mais da metade do dia. Procurou ajuda, estava com depressão. A psicóloga pediu que ele escrevesse o que estava sentindo, a fim de desabafar. Detalhe: ele deveria jogar fora depois. Como professor, pensava que era tamanho absurdo rasgar uma produção cultural e decidiu registrar tudo.

Um amigo o incentivou a publicar em formato de blog a fim de ser orientação para outras pessoas. No dia 24 de janeiro de 2013 nasceu o blog “Sou Pai Solteiro”. Lizandro nunca tinha nem lido algum blog antes. Não tem ânsia pela fama, mas se isso ajudar a divulgar a causa, “vamos lá”, diz. Tem canal no YouTube também, desde 2015, e até agora tem 5 dólares para receber. Hoje ele é porta-voz paterno, causando reflexão nas famílias sobre o papel do pai.

O carioca acredita que a sociedade não prepara os homens para serem pais da mesma forma que estimulam as mulheres para a maternidade. Parece duvidoso e estranho que um homem tenha capacidade para tal. “Mulher não nasce sabendo, comigo foi a mesma coisa”, fala. As frases mais escutadas eram: você faz tudo mesmo? Mas você lava roupa? Você cuida dele? Ao que ele responderia ironicamente: eu compro ração, coloco leite e dou pra ele. Jogo roupa fora e compro novas. “Eu acordo 5h40 da manhã, não acreditam. São coisas que mãe tem que fazer, e eu como pai faço também”, conta.

Tudo que as mães contam passar, eles passaram. Ao falar do seu papel como pai, Lizandro brinca que não dá de mamar e não pariu por motivos óbvios, mas declara ter descoberto um amor incondicional nunca sentido antes.

“Já enchi a cara de desilusões amorosas, mas nada é comparado aquela mãozinha tocando na tua cara, a respiração dele deitado no seu peito”, diz.

As coisas chatas como dar banho e limpar fraldas, o papai revela ter feito reclamando, mas feliz.  Ele lembra de já ter trocado a fralda de Thomaz em público, porque no banheiro masculino não tinha fraldário. A rotina toda muda e cansa, mas existe disposição para no dia seguinte repetir tudo, pois a experiência de paternidade mata mais de amores do que de cansaço.

Já para Aggeo, as maiores dificuldades como pai solteiro eram de levar a filha ao banheiro feminino, apresentar a nova namorada e coisas cotidianas como fazer comidas saudáveis que ela gostasse. Embora Ava tenha atualmente 13 anos, as preocupações continuam com relação a integridade, segurança, saúde física e mental bem como educação.  Por isso o diálogo é tão importante. “Quando eu sinto que ela está precisando desabafar, a gente senta, conversa e flui”, conta. Mesmo que não esteja totalmente inserido no universo feminino, Aggeo fala sobre tudo, respeitando quando ela fica tímida com certos assuntos.

Ele afirma que ver um ser humano crescer é lindo. “Ainda mais quando é sua filha”, acrescenta. Simões fica orgulhoso de acompanhar o crescimento de Ava e vê-la se tornar uma adulta aos poucos. Isso não tira as boas lembranças da infância como o dia em que ficaram colocando nomes nas estrelas, juntos.

“É a minha história misturada à dela”, fala.

Aggeo aconselha que os pais separados devem tentar ao máximo manter em ambos os lares a mesma rotina, dieta e hábitos de lazer para a criança sem haver competição, pois ainda são uma família. “A gente tem que engolir sapos e segurar a onda dos barracos em prol da criança. Vale a pena. Tolerância mil é o lema”, aconselha.

Para o norte-americano crianças são investimento que custa tempo e dinheiro. Parece muito sacrifício, mas Phillipe fala sem hesitar que é o melhor investimento de todos. “Coloque as crianças no primeiro lugar e você vai descobrir uma felicidade que é impossível de explicar”, afirma. Segundo Morgese, a paternidade é um presente de Deus. Ele se sente abençoado de ser professor, guarda-costas, enfermeiro, cozinheiro e treinador da vida.

“Paternidade é maravilhoso se você for homem pra encarar isso”, afirma Lizandro. Para ele, o provedor que pega para passear não é pai, senão dono de cachorro. “Isso qualquer retardado pode fazer, pai tem que botar a cara a tapa”, enfatiza.  Um dia o sobrenome “Solteiro” no blog pode mudar, pois o carioca ainda quer viver um grande amor. No entanto, ele sabe que nada vai substituir o amor que Thomaz tem por ele.

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Aggeo e Ava


How to make a Basic Rope Braid | Dad Hair School | Babble

Phillip e Emma


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Lizandro e Thomaz

Menina Palito nas aulas de Educação Física

Uma breve crônica da minha experiência desastrosa nas quadras do ensino fundamental

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Ilustração de Marcos Chin

As aulas de educação física nunca foram muito prazerosas. A quadra era diretamente embaixo do sol, o que fazia o verão ser insuportável e o inverno dolorido. Eu não era a mais empolgada da classe com os esportes, mas havia alunos realmente interessados em literalmente suar a camisa. Estes eram o meu terror. Handebol, que pesadelo. Vôlei, um desastre cabal. Futebol nem se fala, eu só corria de um lado pro outro fingindo que estava fazendo algo útil para o time. No fim eu sempre era a última a ser escolhida. Não que isso me importasse muito, oras bolas, eu sabia que não era boa com isso. Bem, ainda não sou.

Isso tudo acontece não porque eu seja uma nerd ou coisa do tipo. Apenas um pequeno trauma com ataques de bola de basquete no meu rosto quando era menor. Crianças adoráveis, eu diria. Meu reflexo para bolas ainda é um tanto quanto rápido demais. Sou ligeira em fugir delas, esquivar, desviar! E isso responde as prováveis perguntas do por que alguém seria tão ruim em todos os esportes. Todos. É claro que um agravante para tudo isso foram os “cavalos” das quadras, aqueles empolgados que adoravam jogar bola. Não quero nem falar da tal Cecília, que tinha esse nome doce e meigo, mas eu morria de medo de ver a guria jogando. Sempre implorava para estar no grupo da tal Cecília. Era melhor tê-la como aliada.

Algumas vezes eu tentava dizer “Oh não, que cólica professor!”, e como ele é macho e não entende o drama de uma fêmea sempre acreditava. Mas só dava pra fazer isso uma vez por mês. Selecionava essa desculpa para os dias mais violentos como o massacre de handebol. Francamente Handebol sempre foi e sempre será o pior. Eu tenho até hoje a imagem de Cecília no ar, de pernas, braços e boca abertas com a bola na mão pronta para matar um. Deus que me livre, graças a faculdade não preciso mais disso. Nunca mais, nunca mais.

Acontece que havia um jogo em específico que eu era boa. E sim, tinha bola! Não, não era ping-pong nem alerta. O nome assusta: Caçador. Ah, nunca fui ligada a regras de jogos, não faz sentido porque basicamente é sempre correr atrás da bola. Mas este jogo não, o objetivo era correr da bola. Por isso eu era uma grande campeã! Corria para lá e para cá na quadra, me abaixando como no filme Matrix (ok, não é verdade, mas era tenso da mesma forma) e sempre ficava até o final. Só não era muito bom quando só tinha eu e mais um, assim era difícil esconder o palito que chamava de corpo atrás de outras pessoas. Lembro até hoje de ir de uma extremidade a outra, feliz da vida com a minha mísera e única habilidade esportiva.

Mas um dia abriu uma nova oportunidade na escola: ginástica rítmica. Adivinha só? Tinha bola, mas não era nada violento. Muito pelo contrário, gracioso até. Tinha bambolê e fita. Foi então que comecei a participar de todos os alongamentos, exercícios de flexibilidade e movimentos de dança. Aquela era a melhor memória do ensino fundamental – depois de correr atrás das crianças menores para pegar o lanche delas. Eu odiava rosa, mas aquela legging não ficava tão ruim com o colan preto, as sapatilhas pretas e o coque alto. Eu nunca consegui fazer uma abertura total ou dar estrelinhas como as outras garotas, mas correr dando piruetas e mexendo uma fita colorida sem estar fugindo foi e é uma experiência deliciosíssima.

Conheça a estrela mãe do Rock n Roll

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Era 20 de março, 1915. Vinte anos antes de Elvis Presley e uma década antes de Chuck Berry. Nascia Rosie Etta Atkins em Cotton Plant, Arkansas (EUA), a estrela mãe do rock n roll. Rosetta, como é mais comumente chamada apesar de desconhecida, começou a cantar e tocar guitarra com quatro anos de idade. Katie Bell, sua mãe, era evangelista de uma igreja. Quando pregava dava oportunidade para a filha cantar. Ela era chamada de Pequena Rosetta, um milagre.

A garota era incontestavelmente um gênio, tocava melhor que todos e antes de todos os astros de blues, jazz e rock conhecidos. “Ela realmente merece ser conhecida como Chuck Berry e Ray Charles, e ela foi uma inspiração clara para Elvis e até mesmo Jimi Hendrix”, afirma o dramaturgo roteirista do musical Marie and Rosetta, George Brant. Na verdade, foi ela quem inventou esse ritmo e, por incrível que pareça, com raiz gospel. Rosetta casou-se com um pastor chamado Thomas J. Tharpe, e adotou o nome artístico de “Sister Rosetta Tharpe” (irmã Rosetta Tharpe).

No ano de 1944 ela gravou a música “Strange Things Happening Every Day” (coisas estranhas acontecendo todos os dias, em tradução livre) que é considerada a primeira gravação de rock n roll de toda a história. Etta James regravou a canção em 1960 e Jhonny Cash em 1979. Dos anos 40 aos 60 ela foi a artista mais distintiva do rádio e televisão. Sua música se tornou popular nos EUA nos anos 40, quase 20 anos antes do surgimento oficial do Rock. Tente imaginar uma vovózona negra, com cabelos bem penteados, usando um vestido branco longo e salto alto dedilhando uma guitarra enquanto cantava e dava passinhos para lá e para cá.

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“Quando eu a vi vestida de forma tão recatada tocando uma guitarra branca como Jimmy Page, eu sabia que queria escrever uma peça sobre ela”, declara Brant. A peça teve uma boa repercussão em Nova Iorque no Teatro Atlantic. De acordo com George, a plateia se dividia entre pessoas que já tinham ouvido falar dela (ao menos pelos avós) e a maior parte descobria a irmã pela primeira vez. A guitarra era um instrumento “masculino”, mas a Sister inventou um novo vocabulário de performance do qual muitos homens copiaram.

“Afro-americanas viajando pelo sul sozinhas durante os anos 40 aguentando todo o racismo e as dificuldades que isso implicava, e tudo para seguir seus sonhos e espalhar a alegria que tinham dentro delas”, reflete Brant. Para ele a história de Tharpe é triste, pois falta muito reconhecimento da rainha negra por trás dos reis do rock brancos. “Eu tenho esperança de que ela vai ser introduzida ao Hall da Fama do Rock and Roll aqui em Cleveland em breve”, alega

Gayle Wald é autora da biografia “Grite, Irmã, Grite!: A história não contada da pioneira do rock n roll Sister Rosetta Tharpe” (em tradução livre),  e assim como Brant descobriu Rosetta através de vídeos.  Ela trabalhou no livro por sete anos. “Foi uma corrida contra o tempo pra mim, porque muitas pessoas que conheciam ou trabalhavam com Rosetta eram idosas”, lembra. Ela teve de se debruçar sobre as gravações e histórias orais sobre Tharpe, pois os arquivos escritos eram muito escassos.

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O que mais chama atenção de Gayle na história de Rosetta é a habilidade dela em desafiar as normas da sua época, mesmo que isso tenha a feito impopular. Rosetta conseguia agradar “gregos e troianos” por ser um ritmo nunca antes ouvido, o bom rock n roll com letras religiosas. No entanto para a comunidade cristã os concertos em night clubs eram um escândalo. Ela teve coragem de enfrentar a igreja conservadora questionando sua fé, ao dizer: “Eu vou achar mais pecadores em uma casa noturna do que na igreja”. Rosetta continuou cantando em tours nos Estados Unidos e Europa até o fim de sua vida em 1973, quando tinha 58 anos.

Se todos concordam que Rosetta Tharpe foi primordial para um dos estilos musicais mais queridos, por que ela nunca foi mencionada ou lembrada? Talvez porque ninguém via a mulher negra por trás (ou seria a frente?) do homem branco. Gayle estuda literatura Afro-Americana, músicas populares, teoria da raça e feminismo. Para ela, a história de Rosetta Tharpe é um lembrete em potencial sobre o papel desconhecido da mulher negra da história Americana.

Para ouvir a vovózinha do Rock mais querida que você respeita clique aqui 🙂